Montserrat Caballé em 1971.

A soprano Montserrat Caballé morreu na madrugada de hoje, aos 85 anos, no Hospital de Sant Pau de Barcelona, informaram fontes hospitalares citadas pela Efe e pela AFP.

A soprano, cuja saúde estava fragilizada há vários anos, encontrava-se internada desde o mês passado.

“Ela morreu durante a noite no hospital de Sant Pau”, disse à AFP uma fonte neste hospital em Barcelona.

O funeral da artista, uma figura internacional da ópera, vai acontecer na segunda-feira, às 12:00 locais (11:00 em Lisboa), no cemitério de Barcelona.

Retirada há vários anos devido a problemas de saúde, Montserrat Caballé, que já havia sofrido um derrame, foi hospitalizada em meados de setembro, devido a um problema na bexiga, segundo os meios de comunicação social espanhóis.

O chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, considerou no ‘Twitter’ que a morte da cantora lírica é uma “triste notícia”, realçando que Caballé era uma “grande embaixadora” de Espanha, uma soprano “reconhecida internacionalmente”.

“Montserrat Caballé, a sua voz e doçura estarão sempre connosco”, acrescentou.

Nascida a 12 de abril de 1933 em Barcelona, numa família modesta, Maria de Montserrat Caballé Viviana Concepción i Folch entrou para o “Conservatori Superior de Música del Liceu”, em Barcelona, aos 11 anos, e debutou na Ópera de Bâle em 1956, com “La Boheme”, de Giacomo Puccini.

 

A catalã – cuja arte de “pianissimo” era lendária, tal como a sua potência vocal – cantava tão bem Rossini, Bellini e Donizetti como Mozart ou Dvorak.

A 07 de janeiro de 1962, após dois anos em Bremen (Alemanha), Montserrat Caballé finalmente juntou-se à Ópera de Barcelona, o Gran Teatre del Liceu, e foi o início de uma longa história de amor entre a cantora e o seu público.

O sucesso aumentou em 1965, em Nova Iorque, com “Lucretia Borgia”, de Gaetano Donizetti, e em 1967 durante a sua primeira “Traviata” (Verdi), sob a direção de Georges Prêtre.

Caballé fez então várias ‘tournées’ de sucesso no mundo, muitas vezes com a sua amiga, a cantora Marilyn Horne, e triunfou em 1972 no La Scala, em Milão, na “Norma” de Bellini.

Monserrat também gravou um álbum com o cantor dos Queen Freddie Mercury, cuja canção “Barcelona” tinha sido escolhida como hino dos Jogos Olímpicos de Barcelona em 1992.

 

A partir de 1992, os seus problemas de saúde forçaram-na a reduzir a sua presença no palco.

Regressou em 05 de janeiro de 2002 ao Gran Teatre del Liceu, para assinalar o 40º aniversário de sua primeira aparição, o que lhe rendeu uma ovação de mais de dez minutos.

Para assinalar os 50 anos da sua carreira, regressou a 03 de janeiro de 2012 à Ópera de Barcelona para “Outra Noite de Montserrat Caballé”.

A cantora teve a sua filha Montserrat Martí a 15 de novembro de 1972, na sequência do casamento com o tenor espanhol Bernabé Martí, em 1964.

Às vezes cantava com a sua filha, também ela uma soprano.

Montserrat Caballé teve problemas com as autoridades fiscais espanholas nos últimos anos, tendo sido sentenciada, em dezembro de 2015, a seis meses de prisão, que não cumpriu, e a uma multa de 250.000 euros por evasão fiscal.

Monserrat Caballé foi “um dos pináculos do canto lírico do século XX” – João Pereira Bastos

O antigo diretor do Teatro Nacional de S. Carlos João Pereira Bastos classificou Montserrat Caballé, que morreu hoje aos 85 anos, como “um autêntico pináculo do canto lírico do século XX”.

Para João Pereira Bastos, que também foi diretor da Antena 2, a soprano Montserrat Caballé está ao nível de outras “divas” do século XX como Gina Sinha, Zinca Milanov, Maria Callas, Giulietta Simionato, Fiorenza Cossoto, a Tebaldi, Mirella Freni e Joan Sutterland.

É uma perda muito grande, sustentou o antigo diretor do Festival de Macau, considerando que atualmente há “canto a rodos” e “cantores do melhor que há” mas que “não têm a personalidade nem o recorte específico que estas grandes divas do século XX tinham”.

Para João Pereira Bastos, Montserrat Caballé “era uma das maiores sopranos de sempre da história da música do século XX”.

João Pereira Bastos, que também foi diretor de produção e diretor técnico do S. Carlos, sublinhou ainda o facto de Monserrat Caballé ter tido “bastantes pontos importantes para Portugal como para ela”, exemplificando com o facto de a soprano ter saído de Espanha para ir para uma companhia residente na Alemanha, tendo o S. Carlos sido “muito importante

Para a soprano, porque foi o primeiro teatro internacional que visitou vindo dessa companhia”, onde cantou uma obra de Mozart e outra de Richard Strauss, disse.

Na altura, a “soprano espanhola foi fazer a sua carreira internacional e estreou ´Norma`, que foi estreia absoluta no S. Carlos, que ela escolheu para estrear essa ópera”, frisou.

João Pereira Bastos considerou Monserrat Caballé “uma voz de soprano lírico com algumas características invulgares, sobretudo ao nível do ‘apianar’ de notas agudas (…) muito vizinhas do dó de peito que um cantor daquelas características não produz”.

E Monserrat Caballé “apianava ao nível de não se ouvir uma mosca na sala, como se diz, porque era de uma perfeição tal que era estranho uma voz tão forte ter esse tipo de características”, frisou.

João Pereira Bastos referiu ainda outras prestações da cantora em Portugal como a que teve em 1993 no início do Centro Cultural de Belém (CCB), sublinhando, porém, que a sua interpretação de “Norma”, em 1972, no S. Carlos, foi uma prestação “famosa”.

“Aquela ´Norma` ficou famosa e só a partir dela é que foi cantar pelo mundo fora, nomeadamente no Scala de Milão”, frisou.

Relativamente a outras prestações que a soprano teve, nomeadamente no Algarve, em programas para turismo, João Pereira Bastos considerou que “isso não terá ofuscado a sua carreira”.

“Porque Caballé pertence a uma época em que havia quatro, cinco, seis cantores fantásticos e depois havia uma plêiade de cantores bons mas já de uma segunda linha de luxo, mas era uma segunda linha”.

Não há “dúvida nenhuma que ao mesmo tempo que a Callas e A Tebaldi eram pessoas que se opunham apenas e só nos palcos, como é lógico, também o caso da Caballé e da Joan Sutterland foi um caso idêntico na geração imediatamente a seguir”, referiu.

Plácido Domingo diz que foi “um privilégio” cantar com voz “incrível” de Caballé

O tenor Plácido Domingo afirmou hoje que partilhar os palcos com a soprano Montserrat Caballé, falecida em Barcelona aos 85 anos, foi “um privilégio” pela sua “incrível” voz e talento.

“Minha querida Montserrat, que impressionante vida e carreira tiveste. Obrigada pela tua voz incrível, o teu talento. Descansa em paz. Deus chamou outro anjo para o seu reino”, escreveu o artista na sua conta pessoal da rede social Twitter.

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