Foto de arquivo datada de 21 de março de 2012 da actriz Carmen Dolores. FOTO : ANTÓNIO COTRIM / LUSA

O funeral da actriz Carmen Dolores, que morreu na segunda-feira, aos 96 anos, realiza-se na sexta-feira, no Cemitério do Lumiar, em Lisboa, anunciou hoje a agência funerária Servilusa.

O corpo da artista estará em câmara ardente a partir das 10:00 desse dia, na Igreja de Fátima, na Avenida de Berna, em Lisboa, e as exéquias fúnebres terão início pelas 14:30 horas, com celebração religiosa, seguindo o funeral às 15:00 para o Cemitério do Lumiar, segundo a mesma fonte.

Nascida em Lisboa, a 22 de abril de 1924, Carmen Dolores estreou-se no Teatro da Trindade em 1945, mas para trás ficava um percurso iniciado anos antes, na rádio, como declamadora e atriz, e no cinema, onde protagonizara filmes como “A vizinha do lado”, de António Lopes Ribeiro, e “Amor de Perdição”, de Leitão de Barros.

Seguir-se-ia o trabalho no Teatro Nacional D. Maria II, então com a Companhia Rey Colaço – Robles Monteiro, e um percurso de 60 anos que passou pela maioria dos palcos portugueses, companhias independentes, cinema, rádio e televisão.

Retirou-se em 2005, com a peça “Copenhaga”, no Teatro Aberto, encenada por João Lourenço.

Em julho de 2018, recebeu do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, as insígnias de Grande-Oficial da Ordem do Mérito, depois de anteriormente ter sido condecorada pelo chefe de Estado Jorge Sampaio com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Carmen Dolores foi ainda distinguida com a Medalha de Ouro da Câmara Municipal de Lisboa, o prémio Sophia de Carreira, da Academia Portuguesa de Cinema, e o Prémio António Quadros de Teatro, entre outros galardões.

Actriz prestou “serviço de excepção” à cultura portuguesa – Graça Fonseca

A ministra da Cultura, Graça Fonseca, lamentou a morte da actriz Carmen Dolores, uma “voz inesquecível” cujo talento “ajudou a transformar o teatro em Portugal” e que prestou um “serviço de excepção à cultura portuguesa”.

“Uma actriz comprometida com a arte de pensar e de agir, num processo completo, que encantou o público, mas educou também e deu a conhecer, através da sua voz única, a diversidade e a riqueza da literatura portuguesa”, lê-se numa nota de pesar assinada por Graça Fonseca.

Para a ministra da Cultura, a actriz “transformou o seu trabalho e o seu talento num legado único e num serviço de excepção à cultura portuguesa”, tendo-se tornado também numa “referência da arte de dizer poesia”.

“Carmen Dolores pertence a uma geração de actores que transformou o teatro em Portugal, entregando-lhe um saber e uma prática assentes numa relação de compreensão pela palavra, e a importância das suas consequências”, prossegue a nota.

Graça Fonseca sublinhou que o seu percurso “é marcado por exemplos onde o poder da interpretação não se extingue na relação entre o actor e o espectador, mas se prolongou numa luta constante entre a liberdade e a censura, entre a força e determinação em fazer vingar ideais e valores de defesa da dignidade humana, entre o político e a acção individual”.

Nascida em Lisboa, a 22 de abril de 1924, Carmen Dolores estreou-se nos palcos no Teatro da Trindade, na capital portuguesa, em 1945, integrada na Companhia Os Comediantes de Lisboa, na peça “Electra, a mensageira dos deuses”, de Jean Giraudoux, encenada por Francisco Ribeiro (Ribeirinho).

Numa referência ao ser percurso, a ministra da Cultura recordou que Carmen Dolores se estreou no cinema, sob a direcção de António Lopes Ribeiro, na adaptação de “Amor de Perdição” (1943), no qual “surpreendeu” no papel de Teresa de Albuquerque.

Com o realizador José Fonseca e Costa, a actriz deu voz e rosto a Cristina em “A Mulher do Próximo” (1988), “uma personagem que desafiava as convenções estereotipadas da burguesia e que se tornou numa das interpretações centrais” no seu percurso profissional.

“Actriz de muitos recursos e talentos, teve também um papel fundamental na história do teatro contemporâneo em Portugal, desde a sua estreia no Teatro da Trindade e, depois, no Teatro Nacional Dona Maria II, sob a direcção de Amélia Rey Colaço, colaborando com muitas das companhias históricas”, lê-se na nota.

A ministra da Cultura destacou ainda o seu trabalho como fundadora do Teatro Moderno de Lisboa, com Rogério Paulo, Fernando Gusmão e Armando Cortez, “uma instituição pioneira e marcante na história do teatro independente em Portugal”.

António Costa recorda “actriz de delicadeza rara” que “marcou o teatro”

O primeiro-ministro, António Costa, lamentou a morte de Carmen Dolores, recordando-a como “uma actriz de uma delicadeza rara, modesta para quem tão admiravelmente marcou o teatro português”, e que “amava a palavra”.

“Era uma actriz de uma delicadeza rara, modesta para quem tão admiravelmente marcou o teatro português e inspirou nos outros o gosto pelo teatro. Carmen Dolores, a actriz que amava a palavra, deixou-nos. Continuará connosco, no palco da memória”, escreveu António Costa, numa mensagem publicada na rede social Twitter.

 

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