©MOTELX 2022

O festival MOTELX edita este mês de setembro um livro que traça uma cartografia de quase cem anos de cinema de terror português, com filmes praticamente desconhecidos dos espectadores e que mereciam ser divulgados, disse à Lusa o programador João Monteiro.

Durante o festival, que começa esta terça-feira, será apresentado o livro “O Quarto Perdido do MOTELX – Os filmes do terror português (1911-2006)”, com coordenação de João Monteiro e Filipa Rosário, e que reúne textos críticos e académicos sobre cerca de duas dezenas de filmes do cinema português, à luz da perspectiva do género de terror.

“Foi uma surpresa imensa descobrir que, de facto, existe cinema de género em Portugal e que sempre existiu. […] O que era importante era que estes filmes estivessem disponíveis para ser redescobertos ou descobertos”, afirmou João Monteiro, um dos directores do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa.

O festival tem tentado, a cada edição, apresentar filmes da cinematografia portuguesa que estejam de acordo com a temática do terror, na secção “Quarto Perdido”, propondo “algo que pudesse ser original e provocador, para olhar para os filmes noutra perspectiva”.

“[Espero] que se possa olhar novamente para estes filmes de outra maneira e que se possa voltar a falar deles e a vê-los e que possa inspirar estudos mais profundos. Isto é só uma pista, a nossa vontade de deixar um registo de um trabalho que achamos que foi valioso e que deu prazer”, disse.

Depois de uma década de pesquisas, contando com a ajuda da Cinemateca Portuguesa, foram reunidos filmes, entre curtas e longas-metragens, que se inscrevem nos domínios do ‘gótico’, ‘slasher’ ou ‘sobrenatural’, mas sobretudo do ‘folk horror’, cuja predominância no cinema português “é quase absoluta”.

“Chegamos à conclusão de que os exemplos encontrados se inscrevem na escassa tradição literária fantástica; ou seja, não chega para formar um cânone, mas é suficiente para distinguir algumas características muito portuguesas neles, dando origem a um corpus”, lê-se na introdução.

Segundo os coordenadores, a decisão foi “avaliar a produção de cinema português até 2007, ano da fundação do festival [MOTELX], porque, a partir desse momento, começam a emergir mais títulos e, mais importante ainda, filmes assumidos como de género”, lê-se na introdução.

É por isso que a pesquisa do livro termina com “Coisa Ruim” (2006), de Tiago Guedes e Frederico Serra, que será exibido este ano no festival, e abre com “Os crimes de Diogo Alves” (1911), realizado por João Tavares.

Este filme do cinema mudo, sobre a história do criminoso galego que, por conta de dezenas de mortes no século XIX, ficou conhecido como o assassino do Aqueduto das Águas Livres, é considerado o primeiro de terror em Portugal: “O filme “é um ‘slasher’, são 20 minutos do Diogo Alves a matar pessoas”, resumiu João Monteiro.

O MOTELX irá exibir este filme na quarta-feira, no Teatro Municipal São Luiz, com música ao vivo pelo Combo da Escola Superior de Música de Lisboa, a partir de uma partitura de Bernardo Sassetti.

No livro “Quarto Perdido”, cada filme seleccionado tem direito um texto que o apresenta, analisa ou contextualiza, contando com colaborações de académicos, investigadores e críticos como Leonor Areal, Paulo Cunha, Tiago Bartolomeu Costa, Pedro Mexia e Daniel Ribas.

Na obra, que tem edição e distribuição pelo MOTELX, são abordados, entre outros, os filmes “O Crime de Aldeia Velha” (1964), de Manuel Guimarães, “A Maldição de Marialva” (1990), de António de Macedo, “O Construtor de Anjos” (1978), do pintor Noronha da Costa, “Rasganço” (2001), de Raquel Freire, e “Aparelho Voador a Baixa Altitude” (2002), de Solveig Nordlund.

Neste “Quarto Escuro” é possível ainda ter novas leituras dos filmes “Os Canibais” (1988) e “Convento” (1995), de Manoel de Oliveira, e “O Fascínio” (2003), de José Fonseca e Costa.

“É, sem dúvida, um exercício muito estimulante pensar em que categorias do terror se inserem filmes de autores como Manoel de Oliveira ou Fonseca e Costa; é algo que obriga imediatamente a uma nova percepção da obra, imbuindo-a de uma faceta intemporal por permitir essas novas leituras”, sustentam os coordenadores.

A eles junta-se ainda os escassos 26 minutos que sobreviveram do filme “Três Dias Sem Deus” (1946), a primeira longa-metragem realizada por uma mulher em Portugal, Bárbara Virgínia, e estreada naquele ano em Cannes.

João Monteiro sublinha o esforço do MOTELX em dar visibilidade a estes filmes, e à Cinemateca por os preservar e ter em curso um processo de restauro e digitalização, mas insiste na etapa de acessibilidade de todo este cinema para o público.

“A Cinemateca está a tentar programar estes filmes, eles devem dar a volta ao país e devem serem mostrados em escolas, mas devia haver uma forma de estarem acessíveis, da maneira que as pessoas mais recorrem, seja através de ‘streaming’ seja através de DVD, embora o mercado esteja ultrapassado. E depois há a RTP Play. O cinema português todo ainda não é muito acessível”, disse.

O 16.º MOTELX decorrerá de 06 a 12 de setembro em vários espaços de Lisboa, embora o local central seja o Cinema São Jorge.

A apresentação de “O Quarto Perdido do MOTELX – Os filmes do terror português (1911-2006)” está marcada para o dia 10.

 

ND com Lusa

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