Foi em 23 de fevereiro de 1987. Há 34 anos partia um dos nomes da resistência antifascista em Portugal.

Quando em 1968 entrou nos estúdios da RDP, no Monte da Virgem, Gaia, para gravar “Cantares do Andarilho” (Editora Orfeu), José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, mais conhecido por Zeca Afonso, estaria longe de imaginar que iria ser (e será para sempre) um dos símbolos maiores da revolução em Portugal.

As suas canções, também elas revolucionárias para o panorama musical português da altura, em plena ditadura, lançaram as sementes da contestação ao antigo regime.

Querendo ou não, José Afonso tornou-se figura icónica da luta pela liberdade, num país onde o povo empobrecido por mais de 40 anos de fascismo ansiava por uma senha para a Liberdade.

O sinal, um deles, naquela noite de 24 para 25 de Abril, saiu da suas entranhas, como um grito para incentivar ao combate ou à acção. Portugal, um país profundamente conservador, que vivia sob um regime ditatorial, estava prestes a sair daquela madrugada negra.

 

Nasceu em Aveiro, em 2 de agosto de 1929, no seio de uma família burguesa. Zeca era filho de um juiz e de uma professora.

O ‘menino’ Afonso não teve uma infância fácil à conta de uma trágica história de separação dos pais. Passou parte da infância em Angola, Moçambique e Timor, onde seus pais seriam cativos dos ocupantes japoneses durante três anos, entre 1942 e 1945. Durante esse período, Zeca Afonso não teve notícias dos pais.

De regresso a Portugal, Zeca Afonso foi estudar para Coimbra. Frequentou o Liceu Nacional D. João III e a Faculdade de Letras de Coimbra, e integrou o Orfeão Académico de Coimbra e a Tuna Académica da Universidade de Coimbra.

Já nessa altura, Zeca Afonso se revelou um intérprete especialmente dotado na canção de Coimbra. Assimilou o ambiente de mudança que, naquela altura, se estava a começar a manifestar naquela cidade à beira do Mondego.

Zeca convivia por esses dias com figuras como António Portugal, Flávio Rodrigues da Silva, Manuel Alegre, Louzã Henriques, Carlos Pato e Adriano Correia de Oliveira, entre outros.

José Afonso foi um músico possuído pelo génio. Mas, como todos os talentos tinha as suas angústias. Dizem, era hipocondríaco, sofria de insónias, era um ser constantemente em conflito consigo mesmo. Como homem questionava sempre a Justiça ‘das coisas’.

Zeca, que até então se dedicara exclusivamente ao fado coimbrão, faz a sua primeira incursão pela canção política com “Os Vampiros”, editado originalmente em single em 1963, e “Menino do Bairro Negro”.

“Os Vampiros”, com o seu ataque violento ao sistema económico, é ainda hoje uma das mais emblemáticas canções de Zeca.

 

São os mordomos Do universo todo

Senhores à força Mandadores sem lei

Enchem as tulhas Bebem vinho novo

Dançam a ronda No pinhal do rei

Eles comem tudo Eles comem tudo

Eles comem tudo E não deixam nada

 

 

Com as primeiras músicas veio a censura, mas também as digressões internacionais.

Em Maio de 1964 José Afonso actua na Sociedade Musical Fraternidade Operária Grandolense, onde se inspira para fazer a canção Grândola, Vila Morena.

A música viria a ser a senha do Movimento das Forças Armadas no golpe de 25 de Abril de 1974, permanecendo como uma das músicas mais significativas do período revolucionário.

Em 1964 regressa a Moçambique em virtude dos problemas que começa a enfrentar em Portugal. Manifesta-se contra o colonialismo, o que lhe causa problemas com a PIDE, a polícia política do Estado Novo.

De regresso a Portugal em 1967, foi expulso do ensino público e torna-se definitivamente um símbolo da resistência democrática. Mantém contactos com a Liga de Unidade e Acção Revolucionária e o Partido Comunista Português e é preso pela PIDE.

Com “Cantares do Andarilho”, recebeu o prémio da Casa da Imprensa pelo Melhor Disco do Ano, e o prémio da Melhor Interpretação. Para que o seu nome não seja censurado, Zeca Afonso passa a ser tratado nos jornais pelo anagrama Esoj Osnofa.

“Venham mais Cinco”, “Grândola, Vila Morena” acenderam o rastilho e Zeca, entre abril e maio de 1973, esteve detido no Forte-prisão de Caxias pela PIDE/DGS.

“Grândola, Vila Morena” foi escolhida pelo Movimento das Forças Armadas (MFA) para ser a segunda senha de sinalização da Revolução dos Cravos.

À meia noite e vinte minutos e dezoito segundos do dia 25 de Abril de 1974, a canção foi transmitida pelo programa independente Limite, através da Rádio Renascença, como sinal para confirmar o início da revolução.

Também por esse motivo, transformou-se em símbolo da revolução, assim como do início da democracia em Portugal.

Zeca Afonso viria a faleceu em 23 de fevereiro de 1987, no Hospital de Setúbal, às três horas da madrugada, vítima de esclerose lateral amiotrófica.

O seu funeral na “cidade do peixe” juntou mais de 20 mil pessoas. Os seus restos mortais descansam no cemitério setubalense de Nossa Senhora da Piedade.

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