Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Eu sei, já ninguém de bom senso consegue ouvir falar de politicamente correto. E, ainda assim, aqui estamos novamente, no pântano das subjetividades, suscetibilidades e outras futilidades que se encarregam de nos desviar de assuntos mais importantes.

Vem isto a propósito da nomeação do grego Margaritis Schinas para comissário europeu. Schinas recebeu da Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, uma pasta com o nome “Proteger o nosso estilo de vida”, europeu, portanto.

As palavras não são inócuas, como sabemos. Há nesta pasta, que terá, entre outros, assuntos do âmbito das migrações, uma mensagem que parece clara e que chocou alguns: a de que os fluxos migratórios não devem colocar em risco o nosso estilo de vida.

Na Europa timoneira dos Direitos Humanos – e é-o, com todas as suas debilidades e caminho a percorrer -, na Europa da resolução diplomática dos conflitos – e décadas sem guerra provam-no para lá de qualquer crítica bem-intencionada -, proteger o nosso estilo de vida só pode significar isso: proteger os direitos humanos, as liberdades e garantias de todos e de cada um, sopesadas entre si; sejam elas o direito de cada um a professar a religião que entender; o direito a estudar e trabalhar por uma vida melhor e a não ser vítima de exploração ou escravatura, de barreiras de género, casta ou outras; a garantia de não ser agredido sem que exista um processo, autoridade e meios para que da agressão advenham consequências para o agressor, a certeza de não poder ser condenado ou punido sem julgamento justo; a tranquilidade de saber que há um mínimo comum de regras, prévias, claras e definidas, a cumprir, e um vasto leque de direitos, sociais, económicos e culturais, entre outros, de que beneficiar.

Qualquer outra interpretação, nomeadamente a implícita nas críticas, de que a expressão ‘proteger o nosso estilo de vida’ esconde uma filosofia de recusa da integração de migrantes ou, pior, de denegação do seu acolhimento quando em causa está a sua vida ou integridade física e moral, vem validar, ‘a contrario sensu’, esta apropriação de uma certa extrema-direita em ascensão, na Europa e no mundo, da expressão, e da densificação perversa, e historicamente errada, do que é o ‘nosso estilo de vida’.

Ao reapropriar-se da expressão relativa ao estilo de vida europeu, Ursula Von der Leyen está a conquistar o espaço necessário para afirmar o que isso realmente significa. Na Europa. Na Europa onde todos os que vierem por bem são bem-vindos – e é para isso que muitos trabalham todos os dias, para que isso seja possível sem provocar desequilíbrios e contestação social -; na Europa onde mesmo os que não vierem por bem têm direito a julgamentos e a penas justas, exatamente como acontece com qualquer europeu. Mais do que isso, convenhamos, não pode, nem deve, pedir-se à Europa.

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