Pedro Cunha
Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta longa-metragem com produção associada entre a Espanha, França e Luxemburgo (Tarantula Luxembourg) foi dirigida pelo realizador Oliver Laxe (destacou-se com o filme “Mimosas”, 2016), narra a história de um pirómano acabado de sair da prisão que regressa (sem ninguém o esperar) a casa da sua mãe numa pacata aldeia da Galiza.

A cena de abertura (sensivelmente 5 minutos e meio) ficará seguramente vincada na sua memória, não pelo “silêncio” da floresta à noite, mas pelo misticismo que irá irromper os seus sentidos com o “abate” agoniante de parte importante do que nos faz viver esta vida…

Não perderá completamente o fôlego, mas poderá questionar-se sobre “muito” daquilo que se passa no Planeta enquanto dormimos… e ao mesmo tempo, aquilo que “não conseguimos ver” durante os períodos conscientes do dia a dia “como se continuássemos a dormir” sobre os assuntos que a todos os seres vivos no nosso Planeta dizem respeito (em particular aos seres humanos “racionais”).

O primeiro destaque sobre este filme vai inteiramente para os actores, “não profissionais”, que concedem à expressão dramática um desempenho ímpar sendo acima de tudo genuíno e irreproduzível!

“Mãe e filho”, contracenam numa aldeia igual a muitas outras de Portugal, são pessoas simples e com problemas mundanos complexos apesar da aparente simplicidade de viverem no campo. As personagens de Benedicta e Amador seguramente ficarão na sua retina, em particular aos leitores que de alguma forma vão revisitar períodos saudosos da sua infância/adolescência (vividos numa aldeia) depois de assistirem a este filme.

O assombroso trabalho de direcção de fotografia de Mauro Herce (destacou-se com o filme “Dead Slow Ahead”, 2015), que com uma paleta de cores, tão ricamente texturizada quanto a própria história, irá encantar o espectador numa explosão deliciosamente visual!

A banda sonora é crucial, apesar de muito subtil em vários momentos fundamentais da acção narrativa. A produção musical realizada por Xavi Font enfatiza o carrossel de emoções que se vão sentido durante todo o filme e, que seguramente não o deixará indiferente.

Quanto à temática do incêndio, pessoalmente e desde que me conheço, penso ser um assunto recorrente apesar de reconhecer que Pedrogão foi algo que ultrapassou e muito tudo o que a memória me concede sobre o assunto!

Ainda assim fica a questão: o que é que efectivamente fizemos colectivamente sobre os incêndios na Amazónia (para além da opinião generalizada com comentários e emoji nas redes sociais – para além do mediatismo politico)?

E sobre África, que ardeu ainda mais que a Amazónia (no mesmo período de tempo) como foi registado em Angola e no Congo com sensivelmente 10 mil incêndios activos enquanto no Brasil se registavam 2127?

Para quando, e durante os períodos conscientes do nosso dia a dia, efectivamente acordados para estes factos faremos algo para a preservação do “habitat colectivo”?

Se o grande pulmão do Planeta foi dilacerado de forma quase irremediável o que de facto está a ser feito sobre todos os outros micro pulmões do Planeta?

“O que arde” regista um simpático percurso nos festivais de cinema com várias nomeações destacando-se o galardão, Un Certain Regard Jury Prize, arrecadado em Cannes!

No Luxemburgo, Viendra le Feu, estreia no próximo dia 25 de Setembro no Ciné Utopia e aguarda-se a possibilidade de estreia desta longa-metragem em Portugal.

Bom filme!

 

Assista aqui ao trailer:

 

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