Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Recentemente, os satélites permitiram-nos observar do espaço a extensão e a gravidade dos incêndios na Amazónia e em África, impedindo que déspotas, como Bolsonaro, ocultassem a realidade e as consequências das suas políticas ao mundo.

A ESA [ Agência Espacial Europeia] providencia aos países membros, como Portugal, valiosíssimas informações sobre a propagação de fogos através dos dados enviados por alguns satélites como o Envisat.

No entanto, muito melhor monotorização de fogos por satélite seria possível. Cinquenta anos depois da chegada do homem à Lua, ainda não temos na Europa uma rede de satélites que permita a monotorização de fogos, das respetivas frentes, das suas características em tempo real com detalhe de algumas dezenas de metros e a localização das ignições. Aliás a tecnologia necessária para realizar operações semelhantes em tempo real já existe, embora orientada para o setor militar.

Uma rede de satélites equipada com instrumentos dedicados à monotorização em contínuo de incêndios seria extremamente útil para as forças de combate no terreno. Esta rede permitiria registar a hora e a data de ignições, a sua localização precisa bem como a localização e extensão das frentes de incêndio, a sua velocidade e direção de propagação e ainda a temperatura das chamas.

Esta informação é preciosa para as corporações de bombeiros que se encontram no terreno para as quais é extremamente difícil perceber a evolução das chamas, sobretudo em regiões montanhosas, o que torna complexa a definição da estratégia de combate a incêndios em áreas extensas.

Apesar de interessante, a tecnologia de drones é muito limitada para realizar este tipo de tarefas. A observação aérea por aviões a alta altitude com instrumentos de observação dedicados já é pontualmente realizada, mas é muito limitada pelo raio de ação das aeronaves e pela proximidade de aeroportos equipados com técnicos e com este tipo de aviões. Além do mais, não é isenta de riscos para as tripulações que sobrevoam os fogos.

Se há dinheiro (é muito mais barato que salvar bancos) e há tecnologia então porque não se implementa? Falta vontade política das principais forças políticas europeias que têm governado a Europa. A maioria vê a ESA mais como uma despesa do que um investimento no conhecimento e no bem-estar da sociedade.

Outros perdem-se em nacionalismos e populismos esclerosados e continuamos numa senda de políticas desmobilizadoras e sem visão a longo prazo. Pelo meio as nossas florestas vão ardendo sem fazermos o máximo que está ao nosso alcance.

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