Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

A qualidade das séries de televisão depende muito do financiamento que estas vão tendo ao longo dos anos e isso reflete-se, como é óbvio, no desenrolar das temporadas. Uma série má pode perder o seu financiamento logo na primeira ou segunda temporada.

Uma série mediana começa bem, tem uma primeira e segunda temporada com muito sucesso para angariar financiamento mas a partir daí consiste em encher chouriços durante o maior número de temporadas possível até que as pessoas se cansam e se decide avançar para a série final onde, aí sim, se espera um chouriço de porco preto caseiro.

Uma série muito boa vai-nos entretendo temporada após temporada, mas há sempre uma quebra ali pela quarta ou quinta temporada, onde há sempre a necessidade de encher um ou outro chouriço e colocá-lo por cima da lareira.

Mas há uma exceção. A melhor série que já vi. Estou a falar do Brexit, claro. E esta quarta temporada está a ser a melhor de todas. É que as expectativas já eram altas após o final da terceira temporada. Podem ter enchouriçado um bocado quando Theresa May apresentou três vezes o seu acordo a votação pelo parlamento mas a forma como a temporada acabou com a sua saída do Número 10 de Downing Street e a chegada ao poder de Boris Johnson deixava antever uma épica quarta temporada.

E os primeiros episódios, que tenho seguido avidamente, não têm uma única ponta de fumeiro. Se as três primeiras temporadas eram maioritariamente dramáticas, a passagem de Boris Johnson para protagonista transformou a série numa epopeia trágico-cómica ao nível dos melhores clássicos gregos.

Quando todos pensavam que o seu antagonista Jeremy Corbyn iria encontrar maneira de chegar ao poder e suspender o Brexit, eis que Boris, numa jogada original delineada pelo seu sidekick Dominic Cummings, decide suspender o parlamento por 5 semanas, algo que ninguém estava à espera pois em 40 anos de séries televisivas isso nunca tinha acontecido.

Mas acontece que estas 5 semanas só começariam após uma primeira semana de trabalhos parlamentares, o que originou uma trama bem dentro das paredes do parlamento.

Adoro a forma como desenvolveram a ideia de parlamento nesta série. Uma instituição com séculos de existência, com práticas ainda medievais, como votar através da entrada em salas anexas ao plenário, mas com um contexto legal que permite as mais imaginativas formas de exercer o poder. É lá que se encontra a minha personagem favorita nesta História, o speaker John Bercow. O ator que encarna esta personagem é genial e não sei porque é que ainda não ganhou o merecido Emmy.

O primeiro episódio no parlamento começou contudo com uma cena que me desiludiu um pouco por achar demasiado exagerado. Na vida real isto nunca aconteceria. Durante o discurso do primeiro-ministro um deputado do seu partido levanta-se da sua bancada e muda-se para a bancada de outro partido com Boris a olhá-lo pelo canto do olho estarrecido.

Mas percebe-se que estes guionistas de Hollywood pretendam dar um bocado mais de espetáculo.

Depois, a votação. 21 deputados do partido do poder a votar contra a disciplina parlamentar para que o Brexit seja adiado, graças a isso essa votação passar e impedir Boris de cumprir o seu desejo de sair sem acordo. Seguiu-se a habitual purga tão característica de regimes semelhantes como o Soviético ou o Nazi.

Pelo meio não faltou a comédia, o Ministro dos Assuntos Parlamentares deitado no parlamento numa clara referência a Rose do Titanic enquanto esperava por um retrato e a líder do Partido Verde a mandá-lo sentar-se direito com um “Endireita-te homem!”.

E nem vou falar das 100 amendas à lei do adiamento sugeridas pelos Conservadores para tornar o processo ainda mais longo e que a Casa dos Lordes teve que analisar até à uma da manhã, a hora em que os velhinhos de 150 anos que trabalham nesta casa costumam acordar a meio da noite para tomar o comprimido para o Alzheimer.

No último episódio que vi, mesmo ontem, o drama familiar com o próprio irmão do primeiro-ministro a sair do governo por não conseguir decidir se prefere a família ou o próprio país.

Agora vive-se um mundo invertido em que o primeiro-ministro chama galinha e blusa de uma rapariga gorda ao líder da oposição e pede eleições antecipadas, O líder da oposição diz que não quer eleições sem assegurar o adiamento e tudo está de pernas para o ar.

Nesta altura não faço a mínima ideia como vai acabar, e isso diz tudo da qualidade da série. Acredito que vão arranjar mais um adiamento e criar uma quinta temporada, mas quem mais não quer continuar a ver a melhor série política de sempre?

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