Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Deixa-te levar. “Go with the flow”. Podes ter sonhos, ambições, metas a cumprir, mas guarda espaço para o imprevisto, para as surpresas, mesmo para as más. Não consegues controlar tudo – aliás, consegues controlar muito pouco.

Sais de casa de manhã a pensar na conta da luz para pagar, no material que tens de comprar para os teus filhos levarem para a escola e depois tens um acidente e muda tudo, e ficam as contas por pagar, o material por comprar, muito por dizer, nada a fazer. Ou então adormeces ainda a embalar as mágoas, com a firme decisão de nunca mais te apaixonares e, no dia seguinte, a tia que já não vias há cinco anos apresenta-te alguém que te faz cócegas na barriga e comichões no cérebro, que te faz rir e esquecer o que sofreste.

Não controlas nada excepto, talvez, o que fazes perante o que não controlas.

Se perdes o emprego podes deprimir e sentir-te um fracasso ou pensar que, agora que não tens alternativa, o melhor é arregaçar as mangas e ir atrás do trabalho que sempre desejaste.

Se terminaste uma relação podes ficar em casa a chorar ou sair para caminhar, correr ou tomar um café num sítio novo onde talvez encontres velhos amigos cuja falta sentias sem te dar conta.

É isto: deixa-te levar porque de qualquer forma dificilmente estarás no lugar do condutor na tua própria vida – há demasiados obstáculos, pedras no caminho, buracos na via, já alguém dizia que a vida é o que acontece quando estamos ocupados a fazer planos – mas escolhe a tua posição.

Põe-te confortável, lembra-te de todas as vezes em que te sentiste num buraco sem fundo só para mais tarde descobrir que era um caminho para outro lado, melhor, igual, pior, não importa, o importante é continuar, aprender a sorrir mesmo nos momentos difíceis, sobretudo nos momentos difíceis, descobrir que um trabalho pior ou menos dinheiro às vezes significa mais tempo para o que importa, menos companhia significa espaço para novos rostos, e até uma doença grave pode oferecer-nos o dom de aproveitar melhor a vida, a que nos resta – porque é sempre só o resto da vida que temos e muitos poucos podem ‘gabar-se’ de saber quanta vida isso é.

Deixa-te levar mas escolhe quem serás na viagem.

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