Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Tudo indica que o acidente de Arkhangelsk na Rússia teve origem durante o teste de um motor a propulsão nuclear para foguetões ou mísseis. Estes conceitos não são novos.

Nos anos 50, a Força Aérea Americana chegou a testar um avião com motor a propulsão nuclear em o aquecimento do ar comprimido no motor a jacto era realizado por um mini-reator nuclear, em vez da gasolina para avião.

Em teoria, estes aviões teriam uma autonomia muito superior à de um avião normal, voando a velocidades muito superiores.

O grande desafio deste conceito era blindar a tripulação do avião da radiação que estava a ser emitida pelo reator. Essa blindagem era muito pesada e complexa para um avião, inclusivamente para um bombardeiro. O resultado desse teste realizado em 1956 não foi muito diferente deste acidente de Akkhangelsk.

Quando o bombardeiro equipado com um motor da General Electric aterrou foi dirigido imediatamente para um hangar de descontaminação. A blindagem para o reator foi manifestamente ineficaz e a cabine do avião e a tripulação foram fortemente irradiados.

O que é mais grave no acidente de Arkhangelsk é a componente política. Do ponto de vista técnico é conhecido que este tipo de soluções para aviões e foguetões/mísseis são complexas e pouco eficazes – mas utilizada com sucesso nos submarinos.

O que é grave é uma potência como a Rússia ser dirigida por um pequeno grupo de irresponsáveis cujos códigos de conduta pouco se diferenciam de vulgares máfias. A Agência Internacional de Energia Atómica, de que faz parte a Rússia, tem instruções muito claras sobre os procedimentos a adotar em caso de acidentes com reatores nucleares e que não estão a ser respeitados pelo regime de Putin.

A transparência total e a comunicação imediata de informação em caso de acidente são fundamentais para salvar vidas e evitar que outros acidentes semelhantes ocorram noutros países membros da Agência.

A atitude de Putin tentando encobrir o acidente é da mais profunda irresponsabilidade. Para agravar o cenário, do outro lado do mundo ainda temos um irresponsável maior que em nada contribui para ajudar na solução do problema: Donald Trump.

Do ponto de vista da nossa segurança, posso assegurar os leitores que os riscos têm apenas uma incidência muito localizada, restritos às cidades próximas do local do teste. Clarifico também que não ocorreu nenhuma explosão de uma carga nuclear, ocorreu uma contaminação de materiais radioativos após o foguete onde estava instalado o reator se ter despenhado (ou explodido no local de teste?).

Hoje em dia os sismógrafos detectam as explosões caso ocorram ensaios de bombas nucleares. É assim que se têm detectado os ensaios da Coreia do Norte. Em Arkhangelsk não foi registada qualquer anomalia pelos sismógrafos.

Os maiores riscos para os leitores são mesmo os riscos políticos das lideranças de Putin e de Trump, a radiação negativa que ambos emitem para o resto do mundo é bem mais perigosa.

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