Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Algo vai mal quando um país de 10 milhões de pessoas entra num grave ataque de ansiedade provocado apenas por 80 delas. 0.0008% das pessoas conseguem afectar a economia e a sanidade mental de todas as outras. Tenho que dar os meus parabéns aos senhores motoristas de transportes de matérias perigosas, estão ao nível do Ricardo Salgado, Zeinal Bava e outros compinchas na capacidade que têm de provocar o caos.

Mas que pensamento estratégico tiveram os governos ao longo dos anos para deixarem toda uma economia dependente de 80 pessoas? Se um extremista quiser fazer um atentado em Portugal não precisa de gastar dinheiro em explosivos nem em balas, basta comprar 80 comprimidos de diazepam e o país desmorona-se por si próprio.

Não faz sentido ter um país dependente de uma matéria-prima que não possui e de um grupo de pessoas que nem sequer era capaz de encher uma bancada do Parque de Jogos Comendador Joaquim de Almeida Freitas em Moreira de Cónegos. Não seria uma boa ideia mudar o paradigma energético do país?

Ter um modelo de sociedade assente em combustível é arranjar lenha para queimar um país. Se 99.9992% da população não estivesse totalmente viciada em veículos motorizados para todas as deslocações, sejam elas de 100 metros ou de 1.000km provavelmente mesmo com a greve dos motoristas haveria sempre gasolina para as ambulâncias do INEM salvarem pessoas (até porque com menos automóveis existiriam menos acidentes) e, quem sabe, todos teríamos o luxo de não ver as prateleiras dos supermercados vazios graças aos depósitos cheios dos veículos de transporte de alimentos.

Chegámos à velha questão da culpa. Será culpa dos sucessivos governos sem visão estratégica? Ou será das pessoas que os elegem?

Se uma família não consegue ter um plano B para viver num cenário sem combustíveis, por que razão essas pessoas quererão eleger um governo que crie um plano B para a falta de combustível?

Uma pessoa até aguenta bem a falta de alimentos durante dois ou três dias. Caso não exista comida a reação será: “Ah e tal, ainda tenho uma lata de atum lá em casa que me dá para a semana. É da maneira que emagreço”.

Mas se não houver gasolina num raio de 35 metros à volta de casa o desespero instala-se e por todo o lado travam-se batalhas de jerrycans numa guerra civil de estações de serviço.

Só não se atiram cocktails molotov a quem tenta encher o depósito porque isso seria um gasto desnecessário do líquido mais importante do planeta.

Não percebo tanta mania em pesquisar por água em Marte e em outros planetas, se existisse petróleo é que se encontrava vida extraterrestre (pouco) inteligente.

Não precisam agradecer o conselho, senhores da NASA.

Tantos anos a viver em Portugal permitiram-me ter um conhecimento detalhado de estranhas formas de vida.

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