Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Olá, caros conterrâneos no Lux. Saúde, paz e óptimas férias, se e quando acontecerem.

Estamos em plena “silly season”, disparate atrás de disparate e o “cidadão comum” perplexo com o que vai vendo, ouvindo, sabendo por qualquer modo.

A última (será a última?! – a tolice tem a perna rápida!): O senhor que nunca conduziu um camião em dias de sua vida, mas que conduz um Maserati (um brinquedinho de 100.000€, mais coisa, menos coisa), o senhor que se apresenta como porta-voz de um sindicato do sector de transportes, seu vice-Presidente e seu advogado (Viva a polivalência!), acaba de “informar” o País de que poderiam manter a greve durante 10 anos!!!

Até voltei atrás na leitura para me certificar se teria lido bem! Ah, valente! E de onde viria o dinheirinho de que todos dependemos para a satisfação das necessidades mais básicas, já nem falando do lazer, de algum “miminho” especial com que nos brindemos?!

E a solidariedade com aqueles que, à nossa volta, precisam de ajuda, embora devesse ser o Estado a acorrer aos problemas mais candentes das populações, quando em momentos de crise?! Dói-me muito a situação hoje vivida pelos camionistas, por várias ordens de razão: pelo normal sentimento de solidariedade entre trabalhadores, porque estes motoristas são explorados, não recebendo o salário compatível com o seu trabalho, e porque são literalmente forçados a infringir a lei, conduzindo horas extra para além do permitido.

Fecham-se os olhos e o camião lá vai, dez, onze, doze horas, com o mesmo condutor ao volante. E no momento presente, por ainda um outro motivo, igualmente gravoso e inadmissível: porque muitos estão a ser instrumentalizados, assegurando a mediatização do problema real mas ao mesmo tempo colocando sob as luzes da ribalta o tal senhor do Maserati, sujeito com ambições políticas declaradas: É cabeça de lista pelo círculo de Lisboa de um partidozinho que tem em Marinho Pinto o seu primeiro candidato pelo círculo do Porto!

Este sim, verdadeiramente “polivalente”: já o vimos mudar de agremiação política por diversas vezes, tentando a sua sorte! Gente que entende o exercício da política como modo de se servirem, de organizarem as suas vidinhas, não de servir os que os elegeram. Esta “filosofia” já percebemos há muito!

Um dos sindicatos envolvidos nesta greve nasceu em 2015 e é curioso que o seu Presidente tenha, ele próprio, uma empresa de transportes, com trabalhadores de quem é patrão! Uma perfeita “salsichada”, que qualquer rápida pesquisa na net deixa clarificada! O outro sindicato, o tutelado pelo sr. advogado Pardal, tem apenas uns meses de vida e ambos rompem com a tradição do sindicalismo histórico no qual a solidariedade é a pedra basilar, a trave-mestra do “edifício”. Qual quê! Salve-se quem puder!

Durante 38 anos e meio de actividade profissional, nunca “furei” uma greve, assumindo os custos, o que quer dizer que bastas vezes lutei por causas que não me atingiam directamente mas o exercício da solidariedade é paga suficiente no trabalho sindical.

A greve que está acontecendo no sector do transporte de mercadorias e matérias perigosas deixa muitas dúvidas. Para além da “compra” de votos que o sr. advogado está procurando, com vista às eleições legislativas de 6 de Outubro próximo, outro espectro se levanta: este sururu criado à volta das “reivindicações” apresentadas e o modo como se está desenrolando o processo, parece pretender algo mais profundo e perfeitamente condenável – a alteração da Lei da Greve, que a direita mais reaccionária anseia e que já vai “rebolando os olhinhos” perante a perspectiva.

Não sejamos ingénuos, muito menos distraídos! A Lei da Greve já sofreu alterações que repudio, como muitos outros trabalhadores repudiam e não poderá ser “mexida” de novo, sob pena de resultar na sua completa descaracterização, atingindo de forma violenta as garantias dos trabalhadores no que à luta reivindicativa diz respeito!

O direito à greve é um direito inalienável e uma importante conquista de Abril, no nosso País, e não pode ser torpeado nem “posto ao serviço” de obscuros interesses.

Espero que saiamos desta “aventura” sem danos de maior, particularmente para os motoristas e que a lisura de procedimentos vença sobre “esquemas” construídos à medida de alguns.

O sr. do Maserati chegou ao piquete de greve, montado numa trotinete eléctrica e com o argumento de economizar combustível e em defesa do ambiente. Que demagogia barata! Felizmente muitos motoristas abriram a tempo a pestana e recusaram ser marionetas de um teatro triste que um fim triste terá, estou convicta.

Fiquem em paz, sejam felizes. Um forte abraço. SQ

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