Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Portugal e Malta têm uma história comum que é desconhecida da generalidade dos portugueses ligada ao percurso da Ordem dos Hospitalários, que se implantaram e governaram o arquipélago desde o século XVI até à chegada de Napoleão Bonaparte.

Foi graças à série de documentários da RTP, “Malta Portuguesa”, de Paulo Varela Gomes que me foi revelada essa interessante história dos hospitalários portugueses em Malta. Portugal teve vários Grão-Mestres da Ordem do Hospital (ou Ordem de Malta).

Manuel Pinto da Fonseca, nascido em Medrões, Lamego, foi eleito Grão-Mestre da Ordem do Hospital em 1741 dirigindo os destinos de Malta até 1773. Ordenou a construção do Albergue de Castela (destinado aos cavaleiros de Castela, Leão e Portugal), hoje residência oficial do Primeiro-Ministro de Malta, onde se exibe o busto de Pinto da Fonseca e o brasão de Portugal na fachada principal do edifício.

O seu túmulo e o de António Manuel de Vilhena (também Grão-Mestre) encontram-se na capela de Castela, Leão e Portugal na Co-Catedral de São João de Jerusalém. Manuel de Vilhena mandou contruir o Forte Manuel situado na Ilha de Manuel, face à capital Valeta.

Recentemente, tive o privilégio de passar férias em Malta. Enquanto percorria a Superbíssima Valeta, como é conhecida, uma das mais sublimes e interessantes cidades europeias que cabe em 0,8 km2, ouvia a descrições do Paulo Varela Gomes, como se estivesse ali, sempre que descobria um novo testemunho dos hospitalários portugueses. As expetativas que o Paulo me criou foram largamente excedidas. Malta, a capital Valeta e as Três Cidades aliam de uma forma extravagante a beleza natural à beleza da arquitetura e da arte concebidas pelo homem.

Daphne Caruana Galizia. FOTO: Rui Curado Silva

Mas em Malta, nem tudo é beleza. Em 2017 a jornalista Daphne Caruana Galizia foi brutalmente assassinada quando investigava o envolvimento do Primeiro-Ministro Joseph Muscat na atribuição de Vistos Gold e o envolvimento da esposa de Muscat nos Panamá Papers.

Em frente à Co-Catedral de Valeta construída pelos hospitalários, foi instalado um pequeno memorial em honra de Daphne que é removido pelas autoridades periodicamente e recolocado por ativistas malteses que exigem uma investigação rigorosa e independente da morte de Daphne Galizia.

Daphne recebeu ameaças de morte durante anos, os seus animais domésticos foram cruelmente assassinados, a sua conta bancária foi congelada por juízes controlados pelo governo e finalmente Daphne foi brutalmente assassinada por um atentado à bomba quando seguia na sua viatura particular.

Uma execução propositadamente brutal para servir de exemplo ao resto da população. Nos últimos 8 anos, ocorreram 5 atentados à bomba em Malta.

O ano passado, o Parlamento Europeu criou uma comissão, de que fez parte a eurodeputada Ana Gomes, que tem pressionado o governo maltês a realizar uma investigação eficaz e isenta à morte de Daphne. Ainda há esperança para que alguma justiça se faça no caso Daphne.

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