Pedro Cunha
Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta longa-metragem com produção associada entre a India, Austrália e Estados Unidos da América foi dirigida pelo realizador Anthony Maras (destacou-se com a curta-metragem “The Palace”, 2011), narra a história verdadeira do ataque terrorista ao The Taj Mahal Palace Hotel (2008).

O staff do hotel arriscou as suas vidas para manter os clientes seguros enquanto as pessoas faziam sacrifícios impensáveis para se protegerem e salvarem os membros das suas famílias.

O terror ilustrado neste filme, por mais improvável que possa parecer, agradará em geral ao espectador que testemunhará de alguma forma como o hotel ficou sob o cerco de quatro homens armados decididos a massacrar.

A narrativa está bem construída e o actor Dev Patel (destacou-se nos filmes “Lion”, 2016 e “Slumdog Millionaire”, 2008), tem uma interpretação admirável a desempenhar o papel de um dos empregados do hotel que sob o olhar atento do personagem Chef Oberoi, encarnado pelo actor Anupam Kher (destacou-se no filme “M.S. Dhoni: The Untold Story”, 2016), ambos tentam manter os hóspedes longe do perigo quando os ataques eclodem.

O destaque da narrativa passa pelas “subtramas” nas quais o realizador consegue manter o controle sobre os fios narrativos do filme. Enquanto assistimos aos personagens a entrarem e a saírem das histórias uns dos outros de forma subtil mas consistente, como o casal que deixa o seu bebé com a ama ou, como os polícias de Mumbai (sem preparação / formação para actuar neste tipo de cenário) se infiltram no hotel para chegar às câmaras de CCTV, também vários outros personagens irão manter o espectador muito próximo da história.

O uso de imagens de arquivo das notícias reais transmitidas pelas televisões em 2008 é uma forma inteligente de lidar com a exposição, permitindo que a narrativa avance rapidamente envolvendo ainda mais o espectador num acontecimento que a muitos pode já ter desaparecido da memória.

 

 

O impacto do ataque terrorista contra moradores e visitantes é mostrado em igual medida, constituindo uma mudança em relação ao género de filme tipicamente americano superando circunstâncias trágicas num país estrangeiro, mas aqui os heróis são pessoas anónimas “esquecidas” nos recortes de jornal.

Não é dado tempo para explorar a relação entre nativos e hóspedes que além de serem tratados como “o hóspede é um Deus”, aborda como uma cliente racista e o personagem encarnado por Dav Patel ilustra essa falta de tempo que resulta na perfeição narrativa.

A classe de clientes é tratada com um pouco mais de complexidade, pois a linha entre os hóspedes e o staff permanece em vigor, apesar da situação de vida ou morte que todos partilham.

O trabalho de direcção de fotografia de Nick Remy Matthews, (destacou-se com “One Eyed Girl”, 2013), confere à temperatura de cor um envolvimento sério na acção narrativa suportando de forma coerente os fios entre as histórias, quer sejam elas cinematografadas em cenários maioritariamente interiores ou, mesmo nos exteriores sejam cenas nocturnas ou diurnas.

A subtileza com algumas cenas de humor entre os atacantes, confere momentos de mudanças tonais chocantes que o ritmo e a estrutura do filme começam de alguma forma a transmitir a perda de vigor dos terroristas. As cenas de violência são bastante gráficas, mas o verdadeiro horror vem da tensão geral do ataque perpetrado durante vários dias. Apesar destes detalhes tonais, Hotel Mumbai é um excelente thriller o qual acredito que lhe irá proporcionar um momento de entretenimento ao revisitar uma história real retratada de forma crua.

Apesar de registar uma discreta carreira nos festivais de cinema, destaque aos galardões atribuídos ao realizador Anthony Maras no Adelaide Film Festival e Palm Springs International Film Festival.

Em Portugal, Hotel Mumbai estreou no passado dia 9 de Maio e neste momento não está prevista a estreia do filme em nenhuma sala do Luxemburgo.

Bom filme!

 

Para assistir ao trailer aqui:

 

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