Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente aos sábados no LUX24. FOTO: Sérgio Aires

Não é desta que escrevo sobre a transferência milionária do João Félix para o Atlético de Madrid pela cifra de 126 milhões de euros!

Confesso que não me consegui abstrair do triste fim-de-semana passado, não foi a confusão dos “putos” no festival SOMNI na Figueira da Foz, embora não fique alheio à pequena balbúrdia que se instala na cidade, mas tudo tem um preço, e a Figueira da Foz e os seus habitantes merecem que esta cidade seja elevada e que os visitantes deixem alguns “trocos”.

Mas o que de facto me tirou do sério foi o artigo da Fátima Bonifácio, não lhe chamarei professora porque o artigo é de um terrorismo e destilar de ódio sem precedentes. Creio até que um determinado comentador armado político brejeiro, bem conhecido por inflamar opinião pública com expressões e generalizações racistas, teve inveja de tamanha ousadia e malícia usada pela Fátima Bonifácio.

Usar a supremacia racial, desumanizar outros grupos culturais e outras pessoas com cor de pele diferente é de facto de alguém que se deixou ultrapassar pela história, sendo ela uma conceituada historiadora.

Alguém que para comentar recolhas de dados étnicos escreve um artigo deplorável, um atentado à sociedade portuguesa que sempre se pautou pela diversidade, embora eu rejeite veemente a frase confortadora de que somos um país e povo de brando costumes, uma sociedade diversa não quer dizer que a mesma não seja preconceituosa…

É também de lamentar que um Jornal da categoria do público tenha tido a coragem de publicar um artigo daqueles, os jornais têm que ter a responsabilidade de não ajudar a propagar o ódio, a guerra desenfreada por audiências/visualizações não podem ser um meio para este jornal ter descido tão baixo.

Muitos foram os que saíram no contra, e até alguns notáveis, que publicamente demonstraram o quanto atónitos ficaram com o artigo nauseante. Não consigo entender os que saíram em defesa da historiadora, há que perceber que a liberdade de expressão tem limites, racismo e xenofobia não são opinião, é crime.

Está na hora de se fazer algo para combater este tipo de situações, que têm a capacidade de inflamar a sociedade, sei que o racismo não acaba por decreto, sei também que a maioria das queixas apresentadas por racismo terminam arquivadas pelo ministério público, que representando o povo, é o espelho do povo, algum desse povo é ainda preconceituoso.

Apesar de mudanças à lei antirracista, caio na tentação de dizer que ser racista em Portugal é fácil e é barato, as multas aplicadas não inibem as pessoas de prevaricar novamente…

A criação de um observatório contra o racismo e xenofobia pode ser a médio longo prazo um meio para desencadear processos de desconstrução dos flagelos bem como de construção de dinâmicas de interação e conhecimento entre as diferentes comunidades e grupos…

Apesar de tudo, e de ter ficado adoentado pelo despejar de ódio no artigo da Fátima, tenho que fazer a minha homenagem à Sra. Ministra da Justiça Francisca Van Dunem, na terça-feira dia 9 de Julho, no encerramento da Conferência Racismo, Xenofobia e Discriminação Étnico-Racial em Portugal, realizada na assembleia da república, ao qual tive o prazer de participar, a Sra. Ministra foi de uma assertividade, confiança e um charme estonteante, muitas coisas disse, mas marcou-me de facto esta frase: “O racismo é o crime perfeito: quem o comete acha sempre que a culpa é da vítima”…

Esta frase fica para a reflexão de todos nós!

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