Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta curta-metragem australiana, realizada por Shelly Lauman (destacou-se com a curta “Woman Outside”, 2016), narra o percurso de uma jovem mulher que caminha sozinha, de casa até uma estação de metro e ao descer as escadas para a plataforma subterrânea retribuiu o sorriso de um jovem rapaz…

Maeve Dermody (destacou-se no filme “Beautiful Kate”, 2009) é a actriz que dá corpo e alma à personagem feminina (estrondosa expressão dramática) desta curta-metragem simples, mas poderosa, apesar de que nos 7 minutos e 42 segundos não se reproduz qualquer diálogo.

Rodado em Sydney, saliento o trabalho de direcção de fotografia executado por Anna Howard (destacou-se com o filme “South Solitary”, 2010) o qual desempenha um papel essencial no poder da narrativa onde a temperatura de cor ajuda a elevar a “emocionalidade” do “encontro” ao “desconforto como que se fossemos uma testemunha ocular”.

A escolha da realizadora pelo formato 4:3 intensifica a claustrofobia e o isolamento da experiência da jovem mulher que pode transmitir ao espectador o sentimento de “sufoco” por não poder intervir.

Desprovido de música, o design de som realça estrategicamente essa sensação pois, qualquer um de nós podia estar no banco ao lado, impávido e sereno, promovendo ainda o mindset (determinados pensamentos e padrões de comportamento) da personagem feminina e aumentando o suspense.

Uma intensa exploração visual sobre horrores invisíveis, mas que de fato acontecem à vista de todos é a abordagem da curta que vinca de forma inequívoca o horror psicológico e até a “violência” de género que um simples olhar masculino pode provocar, dramatizando uma experiência que ninguém deveria sentir, mas a qual todos deveriam aprender a entender!

A realizadora Shelly Lauman, explora este medo universal e confronta os espectadores com um cenário que sugere conforto, mas que pode ser tudo menos isso!

De várias formas, os dois jovens rapazes tornam-se em vilões pela imaginação e desafiam-nos a que “decidamos” se a rapariga estava realmente ameaçada ou não. Esse é o ponto mais profundo e insidioso que a realizadora faz sobre um cem número de mulheres que já encararam este tipo de bullying silencioso em público.

Na “invisibilidade” do quotidiano, quantos de nós vivenciou ou testemunhou uma experiência de bullying público?

 

 

Birdie é o tipo de filme que, sem dúvida, ressoará não apenas para as mulheres que muitas vezes se sentem vítimas, mas para qualquer um que se tenha sentido ameaçado por avanços sexuais indesejados ou flagrante intimidação.

A curta é promovida pela Fox Searchlight como “Searchlight Short” que numa estratégia de chegar às nomeações aos OSCAR (à imagem de “Skin”, 2018, de Guy Nattiv e Jaime Ray Newman vencedor da estatueta dourada em Fevereiro), com curtas-metragens poderosas, a serem vistas por um grande público, todos os meses estreiam uma curta online.

Birdie estreou no Melbourne Film Festival e recebeu várias outras nomeações, neste momento Shelly Lauman está a desenvolver a sua primeira longa-metragem e penso que se ela conseguir transitar a maioria da sua equipa técnica feminina desta curta poderá surpreender bastante o público.

 

Para assistir à curta, clique aqui:

 

 

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