Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Quem gosta de ler sabe bem o sabor agridoce de ver um livro chegar ao fim. Os devoradores de histórias, como eu, cometem até o pecado de, na reta final, saltar parágrafos mal lidos, na ânsia de conhecer o desfecho.

Por isso é que, às vezes, lemos uma segunda e terceira vez o mesmo livro, mesmo tendo três ou quatro em lista de espera urgente, empilhados na mesa de cabeceira como um lembrete permanente. Mas às vezes lemos duas e três vezes o mesmo livro só porque, na literatura, podemos voltar sem medo ao sítio onde fomos felizes.

Mas voltemos aos livros que terminam. Conhecer o desfecho é o “doce”, ficar sem um companheiro que nos entusiasmou durante alguns dias é o “agri”. Cada livro que nos agarra é como uma paixão de adolescente: destinada a não durar muito mas nem por isso menos intensa.

Apesar de bonita, esta metáfora tem perna curta: quando somos adolescentes terminamos muitas vezes os namoricos já de olho noutro alvo, que esperamos que supere, de alguma forma, o presente-passado.

Nos livros, nos bons livros – aqueles que nos prendem até já não termos posição na cadeira da sala, até nos doerem os braços de estar na cama a ler de barriga para cima ou os cotovelos se fundirem com o colchão de estarmos de barriga para baixo, até ficarmos com a pele colada à sanita (vá lá, quem nunca?) e aparentarmos estar doentes de tantas olheiras depois de três semidiretas a ler “só mais um capítulo”- o drama de chegarem ao fim é que sentimos sempre a angústia de não saber o que o futuro nos reserva: O próximo livro em que pegarmos conseguirá manter o nível de prazer a que este nos habituou? Terá personagens em que nos revemos ou aos nossos (é sempre a nós e aos que nos ocupam o coração que procuramos neles, não é?) Devemos ler outro livro do mesmo autor? Ou passado na mesma época? Ou sobre o mesmo tema? Eu tento estas panaceias amiúde.

Às vezes resultam, outras vezes revelam-se péssimas ideias: tive recentemente de fazer uma pausa longa de Murakami depois de seis livros seguidos dele porque já estava com os olhos em bico da mesma cultura moderno-asiática a que me rendi nos primeiro seis livros. Ler é um vício, e tão aditivo como os outros, às vezes é preciso mudar de droga, fazer uma desintoxicação. “Choose your poison carefully”, dizem os mais velhos.

Parece exagero, mas é realmente um motivo de ansiedade que só os amigos leitores-apaixonados perceberão. Para os seriófilos julgo que será o equivalente a ter de esperar por uma nova temporada de GOT ou, mais dramático, saber que se está a assistir ao último episódio.

Tal como nas séries, alguns autores parece, fazer de propósito para diminuir o interesse, a intensidade ou a qualidade do livro na parte final.

Já me zanguei muitas vezes com escritores – na minha cabeça e em conversa com esse especialíssimo tipo de amigos com quem se pode falar de livros – porque, depois de 700 páginas arrebatadoras, liquidam a história sem arte nem engenho ou, pior, sem um verdadeiro desfecho. E nós precisamos de ‘closure’, de fazer o luto desta despedida de papel, de conseguir sorrir na última linha porque chegámos ao fim da viagem. Detesto finais abertos ou mal conseguidos.

Pergunto-me, no entanto, se alguns autores não o farão de propósito para nos facilitar – e a eles? – dizer adeus ao livro. Um pouco como aquelas pessoas que nos magoam antes de (terem de ou saberem que vão) partir e deixar-nos entregues, novamente, à nossa inexorável solidão.

Por respeito, ou por amor, libertam-nos para novos livros, aventuras, personagens e paixões.

Boas leituras, sem medo, que o melhor está, sempre, por vir.

 

Post Scriptum: Estive para escrever sobre o tema do momento, um odioso artigo racista assinado por quem tinha a obrigação de já ter lido – e vivido – o suficiente para saber que as generalizações são a causa de muitos dos piores males do mundo. Optei por escrever sobre livros porque, como escreveu Miguel de Unamuno, “O fascismo cura-se lendo e o racismo cura-se viajando”. Na minha ótica, ler também é viajar e, por isso, é um dois-em-um que cura estas e outras formas de ignorância, por mais atrevida.

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