Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

A bebé Matilde já tem mais do que os 2 milhões necessários para ter acesso a um medicamento que lhe pode salvar e mudar a vida. Não há garantias, é verdade, mas milhares de portugueses uniram-se para dar a uma bebé de dois meses o que os pais, sozinhos, não podiam: esperança.

Foi um movimento bonito, que terá corrido em paralelo com os esforços do Governo e do SNS e poderá, agora, resultar não apenas na concretização da legítima ambição desta família – de proporcionar à sua bebé o que de melhor existe para fazer face a uma doença rara – mas também no apoio a outras crianças que necessitem deste ou de outros tratamentos.

Falando como alguém que contribuiu, por mim, quantas mais crianças puderem beneficiar deste movimento solidário que nos uniu quando já julgávamos que só o futebol o conseguia… melhor.

A sério, um Europeu como o de 2016 pode ter-nos ficado na memória, mas eu nunca vou esquecer que cantei A Portuguesa à minha filha de 19 meses quando vi, no Facebook, que a meta dos 2 milhões de euros já tinha sido ultrapassada, tudo porque as pessoas de um pequeno país ainda a recuperar (?) da crise conseguiram sair de si para dar aos outros, neste caso a uma criança.

 

E por falar em hinos, crises, saídas e crianças ou criancices, eis que, na mesma semana em que os portugueses deram uma lição de cidadania, solidariedade e civismo – optando por agir e dizer ‘Presente’ em lugar de se limitarem a criticar eventuais insuficiências ou burocracias do sistema e do Estado -, 29 eurodeputados do Partido do “Brexit”, de Nigel Farage, optaram por uma atitude infantil e, pior, desrespeitosa, quando se viraram de costas enquanto tocava o Hino Europeu no plenário do Parlamento Europeu, em Estrasburgo, durante a sua sessão inaugural.

Quando vi o vídeo pensei que fosse mentira. Fake, como se diz agora. Depois, dei comigo à espera que baixassem as calças e mostrassem o slogan ‘Não pagamos’, sendo que aqui não se trata de propina para entrar ou frequentar, mas do acerto de contas para sair.

Eu imaginava que, por esta altura, até estes deputados já tivessem percebido que o referendo foi asneira, que o Brexit é um nó górdio (a resolver sem espada mas eventualmente com cortes) para todos, a começar pelos próprios britânicos. Mas não estes 29 deputados europeus que, tanto quanto sei, não têm problemas em receber os simpáticos ordenados e regalias das suas funções e, a isso tudo sim, era de valor virar costas, ‘to prove their point of view’.

 

Deputados do Brexit viram costas durante hino no Parlamento Europeu

Agora, ao Hino da Alegria, de Beethoven, e a deputados que representam milhões de pessoas de diversas nacionalidades, incluindo aliados históricos? ‘Shame on you’. Ou, como diria John Bercow, ‘Order!’ – que em português equivale ao ‘comportem-se!’ que dirigimos a criancinhas mal-comportadas quando já nos estão a exasperar.

Atenção, nós, os outros europeus, não queríamos que saíssem. Nós sabemos que uma Europa unida pelos seus valores será sempre mais forte perante os retrocessos civilizacionais e os desafios globais que não conhecem fronteiras, das crises migratórias às alterações climáticas.

Sabemos também que a Europa é um projeto em permanente construção e pode e deve ser redesenhada e corrigida em muitos, muitos aspetos – não destruída. Mas, acima de tudo, nós não vamos sequestrar um País, ‘all right’?

Por isso, querem sair, ‘be our guest’, depois das necessárias negociações e sempre com respeito. Atitudes destas revelam, no mínimo, falta de chá.

Publicidade