Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Este fim de semana assistimos a mais uma greve dos trabalhadores das grandes superfícies. As exigências repetem-se: aumento de salários e fecho dos supermercados aos domingos. Mas esta é apenas uma pequena parte do mundo de injustiças a que estão sujeitos trabalhadores e produtores que dependem dos grandes grupos que controlam a produção e a comercialização de frutas e legumes.

Na passada semana, o serviço público francês apresentou um documentário da série Cash Investigation onde foi mostrado com clareza o controlo perverso de cerca de três quartos da produção de frutas e de legumes europeus exercido por estes grandes grupos, através da venda de sementes inférteis aos agricultores.

A legislação da comercialização de sementes nos vários países está de tal modo limitada e armadilhada juridicamente que é praticamente impossível para alguns legumes e frutas o recurso a alternativas às sementes inférteis da Bayer-Monsanto, Syngenta, DowDuPont ou Limagrain, obrigando os produtores a comprar as sementes destas marcas no final de cada colheita.

Para cúmulo, a esmagadora maioria dessas sementes foram selecionadas para ter alto rendimento quando combinadas com determinados tipos de pesticidas, também estes vendidos pelas mesmas marcas.

Muitos destes tipos de sementes são fornecidas prontas a ser plantadas dentro de uma cápsula de pesticida com uma cor artificial, azul ou cor-de-laranja, por exemplo.

Depois de serem esmagados no processo de aquisição das sementes, os produtores vêm as suas margens esmagadas uma segunda vez quando os circuitos de comercialização obrigam praticamente a venda de frutos e de legumes às grandes superfícies que esmagam as margens comprando as produções a preços extremamente baixos e obrigando os produtores a assinar contratos de exclusividade.

Os produtores ficam amarrados a estes grupos económicos em cada uma das extremidades da cadeia de produção vertendo todo o lucro do negócio para as marcas da venda a retalho e para as marcas de produção de sementes.

A luta por um progresso social baseado num ambiente sustentável também passará por quebrar estas cadeias de poder e apostar na agricultura biológica e menos intensiva e em circuitos curtos de comercialização que garantam a diversidade e a liberdade de produção.

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