Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta longa-metragem americana realizada por Steven Knight (destacou-se com o argumento “Dirty Pretty Things”, 2002, e com a realização do prestigiado “Locke”, 2013), narra a história do capitão de um barco de pesca turística batizado de “Serenity” que enfrenta o seu misterioso passado encontrando-se “preso” numa realidade onde nada é o que parece.

Num elusivo estilo noir (configuração clássica de mistério de assassinato), termo do cinema usado principalmente para descrever um estilo que retrata os seus personagens principais num mundo cínico / antipático com histórias cheias de suspense e traição, Steven Knight guia-se por uma narrativa tropical contemporânea “neo noir” no qual parece deixar o seu talentoso elenco encalhado na praia.

Se o personagem “Baker Dill”, encarnado pelo actor Matthew McConaughey, está alienado do jogo no qual está envolvido e distante da descoberta das regras envolvidas, dificilmente saberá a forma de o ganhar.

Por seu lado a personagem “Karen Zariakas”, encarnada pela actriz Anne Hathaway, ex-cônjuge de Dill e mãe do filho adolescente de ambos, traz-lhe uma proposta aliciante que irá colocar em causa toda a “serenidade” na vida do capitão onde o jogo se altera de forma imprevisível.

Um dos destaques neste filme foi a capacidade da produção ter conseguido rodar o filme nas ilhas Maurício, graças ao financiamento local, e provavelmente este “golpe de marketing” poderá reflectir os factos associados ao filme “The Beach”, 2000, que obrigou recentemente a Tailândia a fechar por tempo indeterminado a famosa baía, porque os danos provocados pelo turismo são mais graves do que se imaginava!

Será que as ilhas Maurício, que assentam a sua economia na agricultura e indústria têxtil, mas com renovada mudança estratégica a centrar-se na expansão das suas instituições financeiras locais irá devastar mais uma pérola “ainda natural”?

Penso ser incontornável referir o notável trabalho de direcção de fotografia executado por Jess Hall (destacou-se com o filme “Brideshead Revisited”, 2008), que possivelmente “capturou” a “pseudo-virgindade” de um local que tem tudo para se transfigurar dentro de alguns anos, apesar de não acreditar que o “impacto imediato” seja na mesma escala registado na Tailândia, conferida pelo filme de Danny Boyle!

Se um videojogo pode ser idolatrado piamente (por um adolescente – como o filho dos personagens principais), reduzindo os humanos a meros peões numa construção gigante da sua própria invenção, podem os humanos estar condenados a serem vítimas de sua própria insensatez, caindo em armadilhas emocionais e comportamentais das quais estão conscientes, mas que não podem evitar?

O comprometimento dos personagens e dos próprios atores para levarem tudo muito a sério nesta narrativa pode parecer um pouco ingénuo, mas o que poderemos dizer dos personagens encarnados pela actriz Diane Lane e o actor Djimon Hounsou?

São como que um eco distante do consciente do personagem principal a sussurrar no inconsciente que domina o devaneio que entretém o espectador que se deixa seduzir pela beleza natural que ainda se mantém cristalina.

“Serenidade” marcou presença no Göteborg Film Festival e desde então tem estado ao alcance de um simples clique no navegador internet aqui no Luxemburgo, em Portugal ou em qualquer outro ponto do planeta.

Bom filme!

 

Assista aqui ao trailer:

Publicidade