Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Saudações muito amistosas para vós, meus conterrâneos na diáspora.

Nos anos 80 do século passado, Milan Kundera, escrevia a sua obra mais celebrada: “A insustentável leveza do ser”, já adaptada ao cinema com relativo sucesso. O romance é um labirinto de emoções, surpresas e desamores, tudo filosoficamente apontando para uma verdade bem prosaica: A vida nunca é fácil por mais simples que aparente ser. O autor aproveita para, no meio da trama, dar umas “bicadas” reaccionárias, que deixam perfeitamente descoberta a sua visão do Mundo e como gostaria que ele fosse. Mas este é outro assunto, que não vem ao caso hoje.

De momentos mais afortunados e outros menos felizes se faz pois a nossa vida e por ser tão efémera e pródiga em surpresas nem sempre agradáveis, o melhor é seguir o conselho do filósofo: “Carpe diem!” (Aproveita o dia!) Ou seja, beber a taça dos episódios mais venturosos até ao fundo, sem desperdiçar uma gota.

Está aí uma época de folia bem nossa, bem portuguesinha, alibi para encontros com amigos, danças, cor e luz e, claro, boa paparoca! Falo, naturalmente dos Santos Populares, celebrados em todo o País com festas, desfiles, bailaricos. Aqui, na minha terrinha, já estão colocadas decorações em algumas artérias, embora ainda sem luzes, que é o mais chamativo.

Mas a época festeira já abriu na passada sexta-feira. Três noites de grande animação e muita, muita, sardinha assada: É a já famosa Festa da Sardinha, organização de uma Associação Popular, de seu nome Malta do Viso. Mas a “malta” não chega para o trabalhão que aquilo dá, há que recorrer a (outros) voluntários, amigos e conhecidos, muitos não vivendo na emblemática zona do Viso que deu o nome à associação.

Este ano a Festa voltou ao Coliseu Figueirense, um espaço muito bonito e excelente para este género de iniciativas. Por motivos de saúde, desta vez faltei mas o que tenho ouvido reforça a minha opinião sobre o acontecimento: uma genuína festa popular, à qual os figueirenses aderem com grande entusiasmo. Mas não só as gentes do burgo. A Festa já ganhou nome e traz pessoas de fora a cada ano que passa. Na TV passou uma peça sobre esta realização, uma importante divulgação porque bem detalhada e acompanhada por imagens da festarola.

Compondo o ramo da época e seu ambiente festivo, Portugal venceu a Taça das Nações, contra a poderosíssima Holanda. A “laranja mecânica”, como foi apelidada no tempo do seu maior fulgor, veio ao Porto perder um troféu que embelezaria o seu espólio de troféus. Pois ficou para nós e não sendo uma competição com história (esta foi a sua primeira edição), levou a jogo muitas selecções com valor.

Não sou grande adepta de futebol, nem vejo jogo algum por inteiro, mas quando a selecção ganha é outra coisa: sentimo-nos todos parte do plantel e todos um pouco donos da vitória.

Hoje à noite haverá os arraiais de S. António, outro momento muito ansiado pela gente jovem e também menos jovem. Esta festa tem uma característica interessante: leva a “mistura” entre o religioso e o profano às últimas consequências: o principal bailarico acontece em frente à Igreja do Santo, esta de portas abertas e sempre soberbamente engalanada de flores frescas (prática que deploro pelos avultado montantes dispendidos e que fariam tão bom serviço noutras áreas tão necessitadas!)

É visita obrigatória da noite de 12 o cantor Quim Barreiros, que, ao que consta, segue uma promessa feita de vir à Figueira da Foz nesta noite, ano após ano. E depois canta aqueles temas algo “picantes” em frente à porta da vetusta e respeitável Igreja. Uma festa popular com todos os ingredientes!

A seguir chegam o Feriado Municipal a 24 de Junho e as festas em honra de S. João. O santo, que se alimentava de gafanhotos e mel silvestre e levava uma existência perfeitamente ascética, arrepiar-se-ia com a quantidade de comida que é consumida nesta época: peixe, broas de milho e doces, doces e mais doces, com particular “insistência” no portuguesíssimo arroz-doce, uma delícia imperdível!

E assim vai correndo o mês de Junho, airado e folgazão. Em cada canto da cidade velha, especialmente, grinaldas de flores de papel dão cor e boas energias ao ambiente. Aqui e ali, mesas corridas com convivas bem-humorados e com um pé para a dança. Uma alegria!

Na ponta final do mês, vem o sério S. Pedro, o das chaves, segundo a tradição e ingenuidade do Povo. Desta feita, a festa é além-rio, na margem sul e na freguesia que transporta o nome do santo e que se resume às povoações pesqueiras de Cova, Gala e Cabedelo. De novo a farra, nos moldes costumeiros: luzes, foguetório (quando não interditado, por motivos de segurança), tendinhas de bricabraque, música a rodos, danças e namoricos. Tudo também “nas barbas” da capela, envolvendo a fé com a folia, numa simbiose inimitável.

Carpe diem, companheiros. Gozem bem estes dias de descompressão, propícios a reencontros e à construção de novas amizades. Daqui segue num balão colorido aquele abraço “tuga”. SQ

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