Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente aos sábados no LUX24. FOTO: Sérgio Aires
Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente aos sábados no LUX24. FOTO: Sérgio Aires

Desde que me conheço por gente, nunca fez parte da minha trajetória de vida o desistir… Sou consciente das dificuldades, de obstáculos e de barreiras que parecem intransponíveis.

Na nossa vida familiar e social somos rodeados de pessoas otimistas, realistas e há as que são negativistas. Seria demasiada falta de educação ou de alguma prepotência se dissesse que só me rodeio das otimistas e realistas, não, eu tenho a capacidade de salvaguardar as amizades independentemente da postura das mesmas perante a vida e desafios.

Também não sou super-herói para omitir que já me deu vontade de jogar a toalha ao chão, não nego que às vezes apetece “desaparecer” e largar tudo sobretudo no meu percurso profissional, mas respiramos fundo e pensamos em todas as pessoas que acreditam e que estão comprometidas com um sonho!

Esta semana, li num jornal nacional, que segundo alguns especialistas, a inclusão das comunidades ciganas é algo muito difícil, e um dos dados mencionados para justificar é que 50% das comunidades ciganas não têm o 3º ciclo…

Mentiria se não dissesse que esta afirmação me causou urticária, desde 1997 que iniciei juntamente com outros e outras cigan@s o meu ativismo em prol dos direitos e consequentemente dos deveres dos portugueses ciganos em Portugal.

São mais de 20 anos na luta, deceção, até muitas lágrimas num processo dificílimo. Não podemos escamotear o racismo instalado na sociedade, a incredulidade de algumas comunidades ciganas relativamente a respostas válidas que surgem das entidades no sentido de uma maior aproximação, de forma a criar igualdade de oportunidades reparadoras de processos de exclusão seculares.

Uma das áreas mais complicada é em termos de habitação condigna, há ainda muitas famílias ciganas sem acesso a habitação, há em alguns locais deste país uma omissão crónica e propositada ao problema social…

Sinceramente, tenho noção de um longo caminho a percorrer, há 30 anos o problema das comunidades ciganas era o absentismo escolar e a dificuldade dos portugueses ciganos concluírem o 1º ciclo, não me conforta nada dizer isto, porque os desafios da sociedade são cada vez maiores e a instrução escolar é um dos pilares fundamentais para se alcançar algumas “quotas de prosperidade na sociedade”.

A academia e os académicos são, sem dúvida, fundamentais na elaboração e produção de dados, informação e evidências para que possamos justificar ou impactar políticas que melhorem as vidas das pessoas e se construam caminhos para uma sociedade mais igualitária.

Sabemos que alguns dos estudiosos/’experts’ usam a observação no seu trabalho de campo, têm eles também que ter a capacidade de olhar para trás (passado) e ver os passos que foram percorridos na temática, certamente que não foram dados os que gostaríamos, mas já foi feito um percurso, apesar de ainda muita coisa tenha que ser feita.

Dizer que a inclusão é impossível, é o mesmo que dizer que não vale a pena fazer nada, e que nos basta resignarmos. A academia e os académicos devem reinventar-se nas suas experiências com a esperança de provar que é possível. O derrotismo não pode ser um estilo de produção de informação.

Nos últimos anos, há políticas, projetos e programas que nos mostram que ainda é possível lutar, há uma estratégia nacional para as comunidades ciganas, apesar dos seus defeitos e virtudes, existe!

Os projetos escolhas do Alto Comissário para as Migrações que têm contribuído para a descoberta de homens e mulheres ciganos que hoje são excelentes profissionais bem como grandes ativistas na causa, o programa OPRE que nasce da sociedade civil cigana e que apoia 33 jovens ciganos no ensino superior, o programa ROMED que através da mediação organiza grupos ativos ciganos num processo participativo e de diálogo com as entidades locais.

Há sinais de abertura e vontade, pela primeira vez em 2017 um Ministro (Eduardo Cabrita) recebeu associações e ativistas ciganos, pela primeira vez um Presidente da República Portuguesa recebeu 25 estudantes ciganos do ensino superior no Palácio de Belém.

Em 2018, na cidade da Maia, o Sr. Presidente da República participou nas comemorações do Dia Internacional do Povo Cigano, publicamente afirmou que também é presidente de todos os portugueses ciganos!

Pela primeira vez temos um Secretário de Estado cigano (Carlos Miguel) num governo português, pela primeira vez uma associação cigana é distinguida pela assembleia da república com a medalha de ouro do 50º aniversário dos direitos do homem.

Há muito, muito por fazer, um percurso ao qual é necessário ‘experts’/académicos realistas e otimistas, decisores políticos sensíveis e comunidades ciganas comprometidas com o acreditar! Jamais podemos jogar a toalha ao chão!

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