Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

Esta longa-metragem canadiana realizada por Wilson Coneybeare (destacou-se com a série “Kratts’ Creatures”, 1996), narra a história de dois homens acorrentados numa cave e o respectivo raptor que inicia um “julgamento” em direto com difusão online no qual a audiência se torna em jurados.

Donald Sutherland interpreta um juiz reformado e é parte expressiva da alma e corpo do filme que, a par do personagem psicopata “Henry”, interpretado pelo actor Vincent Kartheiser (destacou-se na série “Mad Men”, 2007-2015), proporcionam um thriller de classe D, B ou Z “oportuno”, com perspicácia e muito pretensioso.

A maior parte da acção narrativa desenrola-se numa cave e, notoriamente o trabalho de direcção de fotografia executado por Mark Irwin (destacou-se com o filme “The Fly”, 1986), marca pontos apesar das inúmeras imagens realizadas com câmaras de vídeo para tornar certos detalhes narrativos numa plasticidade cinematográfica mais grosseira.

A metamorfose da estrutura narrativa para um confronto dialéctico entre o psicopata e o antigo juiz que, aos olhos do personagem “Henry” cometeu um crime imperdoável quando presidiu ao julgamento de um homem o qual condenou por alegadamente ter assassinado uma menina de 14 anos é o catalisador que torna o filme mais interessante.

O que torna mais significativo o argumento é o facto de “Henry” ter uma razão especial para saber que o “assassino condenado” era afinal inocente e, coloca à distancia de um clic os internautas a atribuírem um veredicto sobre a sua culpabilidade.

Prepare-se para meditar sobre o conceito crime, culpa e o voyeurismo colectivo na Era do YouTube, que são interpretados por Dostoiévski e Larry Cohen. Se não precisamos de um filme para assinalar que há homens no corredor da morte que são inocentes, este argumento é mais amplo que isso resultando como um manifesto sobre o que “Henry” pensa acerca de como o sistema legal americano se resume.

Trabalho policial obsoleto, desleixado na busca por bodes expiatórios e fundido com uma imoralidade crónica sobre o que o grande publico aprecia fingir ser “justiça”.

O tendão de Aquiles do “Carrasco Americano” acaba por ser a limitação de produção e parece-me que se o argumento tivesse sido adaptado e produzido por um estúdio mais musculado financeiramente poderia surpreender o grande público e ir muito além de ser um filme que estreou apenas na internet num qualquer site para filmes mais alternativos, apesar do potencial que na sua raiz guardam.

Bom filme!

Assista aqui ao trailer do filme:

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