Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais, escreve semanalmente às quintas no LUX24.

Nos últimos tempos tem vindo a ser notícia a situação nos EUA, onde em diversos estados foram aprovadas leis que restringem ao máximo o direito das mulheres ao aborto.

Destaque dado a uma lei onde o aborto só é permitido até às seis semanas de gestação (período onde o qual muitas mulheres não sabem sequer que estão grávidas) mesmo em casos de vítimas de violação ou incesto.

Os protestos não se fizeram demorar, e muitos vêm esta lei como um atentado aos direitos e às liberdades conquistadas pelas mulheres nos últimos séculos, mas também como um possível ponto de viragem no clima político norte-americano, que poderá passar leis mais restritivas, ou a tornar o aborto ilegal.

Isto, uma vez mais, poderá vir levantar um grave problema de saúde pública – não só física, mas também psicológica. Embora diversos estudos já tenham demonstrado que as mulheres quando fazem um aborto – ou o sofrem espontaneamente – passam por um período de luto, o levar uma gravidez a termo quando esta foi fruto de um “acidente” ou de violação, tem um impacto muito maior na saúde mental, sob a forma de depressão pós-parto, síndrome de pânico ou ansiedade generalizada.

A transição para a maternidade, não é apenas um processo físico, existe também uma transição psicológica, onde a mulher se prepara para trazer ao mundo uma nova vida, e onde começa desde cedo a criar um laço de vinculação com o bebé para nascer.

Perante uma gravidez não desejada, acaba por não haver esse processo mental de aceitação, o que poderá levar a que mais tarde a que a mãe rejeite a criança e não se forme um laço de vinculação seguro. As consequências de uma vinculação insegura ou ansiosa na primeira infância acabam por ter um impacto negativo no desenvolvimento global dos indivíduos ao longo da vida.

Ou seja, para quê estar a forçar uma mulher a trazer uma criança ao mundo se esta não vai ter uma vida repleta de amor? Sim, existe a possibilidade de a mulher mudar de ideias e se tornar numa mãe no sentido afetivo da palavra, e quando não acontece? Teoricamente, a adoção seria sempre uma possibilidade, mas dados os constrangimentos legais e o tempo de espera, essa nem sempre é possível.

Banir legalmente o aborto não vai fazer que ele desapareça, apenas irá fazer com que as mulheres de classes sociais mais desfavorecidas não tenham acesso a este de forma segura, vai fazer voltar as curandeiras e os “abortos de vão de escadas” que muitas mulheres vitimaram ao longo de séculos.

A forma de se tornar o aborto residual e unicamente em casos de violação ou de risco de vida para a mulher ou o feto, é o de primeiro que tudo investir numa educação sexual compreensiva e cientificamente rigorosa nas escolas públicas, de tornar livre e fácil o acesso a diversos métodos contraceptivos, o de criar redes de apoio para as mulheres que engravidaram sem terem capacidade psicológica ou financeira de cuidarem uma criança, ou até mesmo agilizar e “descomplicar” legalmente o processo de adopção.

Até lá, é importante que haja uma opção segura para as mulheres que escolham fazer um aborto. Ser pró-vida é isto, porque legislar de forma apenas a banir o aborto sem dar outras opções e meios de apoio às crianças por nascer é apenas ser pró-nascimento e pró-controlo do corpo feminino.

Ao impormos as nossas crenças aos outros, sem tirar um minuto sequer para pensar que todos temos circunstâncias de vida diferentes, e que nem sempre escolhemos a sorte ou percurso de vida que temos é estar a condenar ao sofrimento psicológico milhares de crianças inocentes, que não pediram para nascer. Ser pró-escolha é ser pró-vida e a favor dos direitos humanos e de preservação das vidas que existem!

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