Apesar do peso da comunidade portuguesa no Luxemburgo, que ronda os 16% da população residente no Grão-Ducado, a toponímia do país não tinha, até agora, uma rua com um nome de uma personalidade portuguesa.

Mas isso está prestes a mudar. É que, em breve, haverá uma rua de Differdange, com o nome da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen.

A atribuição do nome de uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Comunal de Differdange, no passado dia 15 de maio de 2019.

O nome da poetisa lusa surge numa lista com outros 12 nomes, entre personalidades luxemburguesas, alemãs e americanas de diferentes religiões, afiliações políticas e etnias, que vão passar a configurar a toponímia da cidade do sul do Luxemburgo.

A escolha do nome de Sophia de Mello Breyner Andresen surge depois do nome da fadista Amália Rodrigues ter sido vetado anteriormente.

Nascida no Porto em 6 de novembro de 1919, Sophia de Mello Breyner Andresen foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Faleceu em 2 de julho de 2004, em Lisboa. O seu corpo está no Panteão Nacional desde 2014 e tem uma biblioteca com o seu nome em Loulé.

Agora terá o seu nome atribuído a rua de Differdange, no sul do Luxemburgo, onde reside uma numerosa comunidade portuguesa.

Colóquio internacional dedica dois dias à obra de Sophia no centenário da escritora

 

Três dezenas de especialistas nacionais e estrangeiros, entre poetas, professores e gestores culturais, reuniram quinta e sexta-feira na Gulbenkian, em Lisboa, para discutir e estudar a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, no âmbito do seu centenário.

No total, 35 intervenientes, diversas personalidades com ligações ao mundo da literatura e das artes, participaram no segundo Colóquio Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen, organizado pelo Centro Nacional de Cultura, em parceria com a Fundação Calouste Gulbenkian.

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa (D), acompanhado pela filha da escritora Maria Andresen Sousa Tavares (2-D), durante o último dia de trabalhos do colóquio internacional sobre a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, 17 de maio de 2019. NUNO FOX / LUSA

O encontro – um “momento privilegiado para o estudo e debate de uma obra essencial da literatura moderna portuguesa”, como descreve a Gulbenkian – composto por duas dezenas de intervenções (distribuídas por quatro painéis) e quatro mesas-redondas, dedicadas aos temas “O Espaço”, “Os Outros Poetas”, “A Política” e “Arte e Poética”, em que intervieram Ana Luísa Amaral, Frederico Lourenço, Maria Filomena Molder e Richard Zenith, entre outros.

A poeta Adília Lopes abriu o primeiro painel com uma intervenção intitulada “Adília sobre Sophia”, na qual demonstra o seu reconhecimento para com a homenageada, graças a quem diz ter descoberto o poema, com apenas 17 anos, quando leu “No poema”, da obra “Livro sexto”.

“O mundo do poema é limpo e rigoroso. Nada de coisas farfalhudas, nada de aldrabices. Como estudava física, vi também que o poema desentropia [o oposto de entropia, que em física é a medida da desordem de um sistema]. Preserva da decadência, morte, ruína”, descreve Adília Lopes.

Neste primeiro painel, falou também Helder Macedo, professor catedrático da Universidade de Londres e investigador da Universidade de Oxford, autor de vasta obra poética, de ficção e critica literária, que se debruçou sobre o “conto para crianças” intitulado “O Rapaz de Bronze”, e como este ganha uma dimensão maior quando relacionado com a poesia da autora, tanto em termos de critica social como de nostalgia adulta por uma totalidade perdida.

Seguiu-se “O caminho para minha casa”, em que Helmut Siepmann abordou dois aspectos centrais da obra de Sophia – o mar e o nascer do poema -, e “Poesia e realidade: a prosa de Sophia de Mello Breyner Andresen”, por Carlos Mendes de Sousa.

Este painel contou ainda com uma intervenção de Silvana Rodrigues Lopes sobre o breve, o preciso e o indefinido na composição de poemas de Sophia, e foi moderado pelo poeta brasileiro Eucanãa Ferraz.

Aspecto geral do colóquio internacional sobre a obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, 17 de maio de 2019. NUNO FOX / LUSA

Antes disso, a sessão de abertura do congresso esteve a cargo de Guilherme d’Oliveira Martins, Maria Andresen de Sousa Tavares (filha de Sophia), Fernando Cabral Martins e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva.

O professor de literatura e ensaísta Pedro Eiras abordou os “encantamentos” nos trabalhos literários de Sophia e de Cristina Campo, e a possível relação entre eles, enquanto Anna Klobucka, especialista em literatura portuguesa e estudos de género, expôs as suas ideias sobre “Sophia e os cem anos da poesia de autoria feminina em Portugal”.

Cláudia Pazos-Alonso abordou a questão da autoria feminina em Sophia, Paola Poma fez uma aproximação da poesia de Sophia de Mello Breyner à de Wislawa Szymborska, poeta polaca, Nobel da Literatura, e Maria Lúcia Dal Farra refletiu sobre a questão da designação a dar a Sophia: poeta ou poetisa?

No segundo dia de colóquio, José Pedro Serra debruçou-se sobre “A Grécia: Nudez e Revelação Poética”, isto numa altura em que a Assírio & Alvim reedita o ensaio de Sophia de Mello Breyner Andresen “O Nu na Antiguidade Clássica”, obra há muito esgotada, acompanhado de uma seleção de poemas que Sophia escreveu sobre Grécia e Roma.

Joana Matos Frias, Jorge Fernandes da Silveira e Fernando J.B. Martinho completaram este painel sobre Sophia e a sua obra, relacionando-as com Brasília, com a Dinamarca e com Inglaterra.

“Mário Cesariny leitor de Sophia de Mello Breyner Andresen” foi a proposta que Perfecto Cuadrado apresenta no painel da tarde, em que participaram também Emília Pinto de Almeida, Pedro Lopes de Almeida, Sofia Sousa Silva e Gustavo Rubim, com temas tão diversos como a leitura do diáfano em Sophia, a sua geografia (paisagem, viagem e deslocamento) ou o uso do termo “projecto” na sua obra.

O encerramento dos trabalhos coube a Maria Andresen de Sousa Tavares, Maria Calado, Guilherme d’Oliveira Martins e Graça Fonseca, ministra da Cultura.

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