Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve semanalmente às sextas no LUX24.

As eleições europeias acontecem um pouco por toda a semana por toda a Europa. Aqui no Reino Unido serão na quinta-feira, enquanto que em Portugal e no Luxemburgo são no domingo.

Todos nós sabemos que estas eleições não são muito populares, já que no Reino Unido costumam votar cerca de 2 pessoas, em Portugal à volta de 3 pessoas e no Luxemburgo 203.772. Aparentemente o número de votantes é inversamente proporcional à população.

Mas este ano, por terras britânicas será diferente. Tendo em conta que estas eleições serão para eleger deputados, que a acreditar na data do Brexit em vigor, apenas aquecerão lugares até a uma temperatura de 17ºC, espera-se uma abstenção muito mais baixa. É o Paradoxo dos Vídeos de Youtube Com Gatinhos, quanto mais inúteis as coisas são, mais pessoas se interessam por elas.

E eu incluo-me neste grupo de pessoas. Acredito que estas sejam as eleições europeias mais importantes da minha vida, já que posso dar um sinal que não pude dar no referendo, no qual, tal como todos os outros europeus, fui impedido de votar. Por isso estas eleições serão muito mais concorridas por cá.

Uma curiosidade é o chamado voto tático (ou voto útil como se diz em Portugal). No nosso país muitas pessoas adotam partidos como clubes, outras votam pelo cabeça de lista e outros pelas ideias do programa eleitoral. No Reino Unido, muito embora também existam os anteriores, há muito a ideia de votar no candidato menos mau mas com possibilidades de ser eleito, dadas as caraterísticas do sistema uninominal em que só uma pessoa pode ser eleita deputada por área geográfica.

Ou seja, se em termos de futebol as equipas inglesas têm que contratar treinadores estrangeiros, nas eleições todo o cidadão é um mestre da tática, um Jorge Jesus das urnas, um José Mourinho dos boletins de voto.

Apesar de nas eleições europeias ser utilizado o Método d’Hondt por regiões, tal como nas legislativas portuguesas, essa ideia de voto tático continua e pode ter consequências bastante negativas para quem ainda acredita na permanềncia da União Europeia.

Neste momento existem três soluções para o Brexit (Sair sem acordo, sair com o acordo existente e continuar na União Europeia através de novo referendo) e sete partidos que podem eleger deputados.

Quem quer sair sem acordo vai todo votar no Partido do Brexit, liderado pelo demagogo Nigel Farage que diz exatamente o que as pessoas querem ouvir e que é muito mais forte que o seu antigo partido, o UKIP que deverá ser votado ao esquecimento. Assim, sozinho, este partido pode ser o mais votado e aquele que elegerá mais deputados, já que aglutina mais de 30% do eleitorado.

Os poucos que acreditam no acordo votarão nos Conservadores, que graças a isso levarão com a maior derrota das últimas décadas.

O problema para quem é contra o Brexit está na dispersão, existem três partidos claramente a favor disso mas com algumas diferenças entre eles, o Partido Verde, mais dado a causas ambientais, os Liberais Democratas que agrega Social-Democracia e Liberalismo e o Change UK, que nasceu este ano de deputados zangados com os principais partidos por causa do Brexit. Até aqui tudo bem, se usarmos as eleições como mini-referendo e todos os que são contra o Brexit votarem nestes partidos, basta somarem-se todos os votos e teremos uma percentagem gorda, perto dos 50%.

Mas o problema está no partido que falta, os Trabalhistas, nos quais a maiorias das pessoas de esquerda vota religiosamente. Com a sua posição dúbia contra o acordo mas sem defender um novo referendo com clareza. Existem muitos votantes contra a saída da UE que vão votar nos Trabalhistas porque não querem que o partido do Nigel Farage eleja um deputado na sua região e vêem o Labour como o único partido grande com capacidade de eleger deputados. E isso é o maior tiro no pé possível.

Menos votos para os partidos Europeístas, poucos votos na mesma para um partido que não sabe o que quer e Nigel Farage a falar de boca cheia com os seus 30 e tal por cento.

Tudo porque se está a pensar em deputados eleitos quando se tudo correr mal eles nem vão aquecer o lugar. Chama-se a isto voto inútil.

Uma vitória da Europa seria para mim que os três partidos Europeístas atingissem os 50% dando um sinal claro que as pessoas não querem o Brexit. Mas isso não irá acontecer, porque nem eles próprios são capazes de ter esse discurso e tudo ficará na mesma.