A exposição ‘Malgré Lui’, do português Jorge Molder vai estar patente ao público, de 16 de maio a 8 de julho de 2019, no Centro Cultural Português – Camões, no Luxemburgo.

A mostra aconteceu no âmbito da 7ª edição do Festival do Mês Europeu da Fotografia no Luxemburgo, com o apoio da Embaixada de Portugal e o Centro Cultural Português – Camões.

A inauguração da mostra está agendada para o dia 16 de maio, às 18:30.

 

“Malgré lui

Dá-lhe na cabeça, com força!  Com mais força ainda. Vais ver que acaba por deixar de mexer. É sempre assim.

Aparentemente disparatada ou desavinda esta frase parece-me uma boa porta de entrada para este conjunto de imagens a que decidi chamar Malgré lui, não conhecendo ainda todos os pretextos para tal.

Há dias, falava com uma pessoa amiga acerca de umas imagens que fiz, 30 e tal anos atrás, num café de Lisboa, porventura o mais antigo. Passei alguns dias a observar os criados, os seus movimentos, as suas pausas, os seus gestos de preparação e, sobretudo, de espera. Nessa época Lisboa era uma cidade mais pacata e a espera de clientes era bem mais natural. Então, o criado, esse homem que espera, aguardava o cliente mantendo a bandeja metálica sob o braço do seu fúnebre smoking, como se de uma pasta de documentos se tratasse.

Sendo amigo dos donos do café, fiz as fotografias com ele fechado e usufruindo da colaboração dos criados que não esperavam qualquer ordem de qualquer cliente. Diga-se de passagem, que eles acharam muito estranhos alguns dos meus caprichos. Esse da bandeja foi exemplar. Fiz incontáveis imagens dessa situação, imagens com as quais convivi com atenção redobrada, perguntando-me sempre em que caso era aquele gesto mais evidente. Concluí que a visibilidade que eu procurava estava numa das imagens, onde ocorria um leve arrastamento no tempo e onde a nitidez era menor.

Essa rememoração levou-me a esta série que agora mostro e na qual a vida tanto se mistura com a morte. Como os criados a que chamei Waiters – pois a palavra inglesa deixar ver melhor essa pausa e antecipação –, aqui, em Malgré lui, vive também um movimento de aproximação e espera de algo derradeiro, um dia.

Até lá podemos antecipar infinitas máscaras; às quais podemos dar as mais diversas qualidades e, entre elas, a de um dia deixarem de mexer, ou mesmo de nunca terem mexido.

Mas ao pensar no tempo dou-me conta de ter afinal estado sempre a trabalhar para seus incontáveis estratagemas, os seus modos que nos surpreendem quando nos apercebemos das suas marcas, transformações e tantas outros pequenos e grandes acidentes impossíveis de enumerar.

E também do tempo que reúne, que faz crescer e que chega ao desplante de dar sentido a tudo aquilo que mais cedo ou mais tarde vai desaparecer.

Por isso acho inevitável bater, bater muito, bater convictamente, mesmo que se trate apenas de um daqueles desejos que depois passam, que desaparecem como todas as outras coisas” – Jorge Molder / Fevereiro 2019

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