Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Olá, companheiros. Continuação de Boas Festas. Estamos ainda em plena época pascal e em muitas regiões do nosso País, as cerimónias religiosas deste tempo de reflexão foram na segunda-feira ou serão até só no próximo domingo.

Nunca percebi porquê, são tradições antigas e cada “povo”, no seu cantinho, as cumpre como as abraçou.

Independentemente do sentimento religioso ou da sua ausência, este é também um tempo de família e de encontro, encontro esse que tem sido prejudicado aqui, no nosso Portugal, por alterações produzidas no calendário escolar das crianças e dos jovens, alteração que parece aborrecer “toda” a gente mas que entretanto se mantém, nunca tendo sido dada justificação para tal. Talvez por ser demasiado absurda!

Os da minha criação e outros muito mais jovens, lembram-se certamente de que, quando catraios, as nossas férias pascais compreendiam duas semanas, uma antes da Páscoa e outra depois.

Retomava-se a actividade escolar na terça-feira após a Pascoela e esta prática permitia que as famílias tivessem oportunidade de se juntar com os seus mais distantes, até esta altura, podendo celebrar a Festa de acordo com a sua tradição.

Não sei como funciona convosco mas, pessoalmente, considero este calendário uma aberração e como professora, encontro-lhe outra contrariedade e não pequena: o 3º e último período lectivo é, por norma, curto e com esta medida fica ainda mais pequeno e mais limitadas as hipóteses de recuperação de alunos com uma ou outra dificuldade, porque o tempo útil pata tal, se escoa como areia entre os dedos.

Desejo muito que tenham passado estes dias e os que ainda faltam da melhor maneira possível, com saúde, felicidade e a companhia calorosa dos vossos queridos, pois nada é mais importante e mais doce do que a família, logo seguida pelos amigos perto do coração.

Que se não tenham deixado abater demais pelos acontecimentos dos últimos dias, aí, aqui e no Mundo a que pertencemos. Será coincidência mas, junto a épocas particularmente sensíveis, sempre se acumulam desastres e infelicidades.

Foi uma semana triste: começando com o pavoroso incêndio de Notre-Dame, destruindo muito dos seus quase mil anos de história. Depois o que parece ter sido uma tentativa, felizmente gorada, de ataque terrorista a um outro templo, a Catedral de St. Patrick, em Nova Iorque. E a barbárie cometida no Sri Lanka, no próprio dia de Páscoa, acções terroristas diversas motivadas por fanatismo religioso, coisa monstruosa e absolutamente incompreensível.

Uma perplexidade e uma preocupação constante, porque se tem a clara noção de que a Terra deixou de ter lugares seguros, pois o ódio e a loucura têm perna longa e rápido se transportam para qualquer lugar.

Aqui, neste cantinho que parece tão calmo e pacífico, foram os acidentes rodoviários, com muitas vítimas, que mancharam tristemente a época que devia ser de confraternização e de aprazível descanso.

Abandonemos estes assuntos sombrios. Vem aí um Dia Lindo, uma data “redondinha” e tão significativa e encorajadora, o dia de amanhã.

Há 45 anos atrás Portugal, despertava da comprida e assustadora noite fascista, por acção de lutas clandestinas que iam corroendo o regime e pela coragem e abnegação de um grupo de jovens militares, que, pondo em risco as suas próprias vidas, no silêncio da noite, após terem ouvido as senhas de confirmação de que a operação estava em marcha, abandonaram os quartéis e desceram até Lisboa, derrubando o governo torcionário que nos oprimia de todas as formas e fizeram raiar a Liberdade, abrindo-se as portas dos cárceres onde tantos se mantinham em condições sub-humanas e sujeitos a torturas e sevícias ignominiosas.

 

Desta manhã libertadora disse, com a sua sensibilidade apurada, a grande poeta Sophia de Mello Breyner Andersen:

“Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

e livres habitamos a substância do tempo”.

 

Maravilhosa Sophia, como me identifico com as suas palavras, também eu, jovem estudante universitária, ansiava por este dia límpido e glorioso que nos restituiu a dignidade.

Amanhã, em sessão solene de Assembleia Municipal, falarei de Abril com o entusiasmo e a alegria de sempre. Ontem, falei com alunos numa escola da cidade sobre o mesmo tema que tanto me empolga e emociona.

Jamais esquecerei aquele dia absolutamente impressivo e indelével. E a satisfação que sinto por habitar numa rua que recebeu o nome de um dos grandes heróis da Revolução – Fernando Salgueiro Maia, tão precocemente roubado à vida, que merecia fosse longa e feliz. Não o esqueceremos nunca, capitão!

Um 25 de Abril jubiloso para todos, meus amigos distantes.

Um grande abraço de fraternidade.

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