Silvina Queiroz, professora, escreve semanalmente às quartas no LUX24.

Olá, amigos. Esta é a 31ª vez que vos escrevo e vai ser mesmo um 31! A três dias da festa maior da cristandade e festa de reunião de famílias, independentemente das sensibilidades religiosas ou ausência delas, lembrei-me de oferecer um “presentinho” às vossas crianças – uma coisinha simples, sem ambições, uma estorinha alusiva à época e que, se gostarem, poderão ler ou mesmo “representar” em família, com os amiguinhos ou mesmo na escola.

Descansem, não há pagamento de “direitos de autor”, estejam à vontade, miúdos.

Como qualquer estória que se preza, esta começará como deve ser: “Era uma vez…” Era uma vez um coelhinho lindo que morava no tronco esburacado de uma velha árvore, no meio do bosque.

Andava ele a passear numa fresca manhã de Primavera, saltando e assobiando entre as florinhas novas, quando, de repente, sem aviso, desatou a chover copiosamente. O pobre coelhito não teve tempo de fugir para a sua rica casinha. Estava perto do povoado e mesmo cheio de medo, arriscou e encostou-se a uma videira, na porta de um galinheiro barulhento e multicolorido.

Havia “pessoal” de todas as cores naquela confusão: galinhas brancas, castanhas, arruivadas e pedreses, um grupito de patinhos jovens, um monumental peru e dois galos, um deles cheio de importância! Era grande, imponente, de crista farta e vermelha e “barbichas” azuis.

O outro, ainda pequenito e encolhido, andava numa roda viva, fugindo das investidas do “mandão” da capoeira. O coelhinho olhava, assustado, tentando não ser visto… mas foi!

Por uma patinha branca e muito espertalhona e desenrascada. Chegou-se à porta e disparou:

– Olá! Eu sou a Serigaita. E tu, quem és?

– Eu sou um coelhinho da mata. Desculpa estar aqui, fui apanhado pelo mau tempo. Estou cheio de frio!

– Isso já se resolve – disse a Serigaita. E de imediato lançou um quack, quack altíssimo que quase punha surdo o pobre coelho. E logo, de rajada:

– Lanzudo, Lanzudo! Anda cá!

O láparo voltou o focinho e ia morrendo de susto! Lá vinha um cãozarrão enorme, muito felpudo e bem orelhudo também.

– Calma, Lanzudo! Este aqui é boa gente. Abre mas é a porta e deixa-me sair!

Diz o Cão: – E se a dona vê?

– Não vê, odeia trovoada, está enfiada na cama e de lá não sai tão depressa!

O cão desatou o cordel da portinhola e a patita saltou para fora.

– Leva-nos para a tua casota! Ele está a gelar! – disse muito empertigada.

– Mas quem é ele afinal? – inquiriu o Lanzudo.

– É o João, o meu namorado. Gostamos muito um do outro  e vamos viver na casa dele no bosque. E tu tens de ajudar!

– João?!, pensou o coelhito. Mas nunca ninguém me baptizou! Mas soava-lhe bem e ficou contente. E mais contente ainda por saber agora que tinha uma namoradinha linda, tão mimosa e elegante e por não ir viver mais sozinho.

A chuva recomeçou com maior força. Correram para a casota e todos muito encostadinhos, lá se aqueceram e secaram o melhor que puderam.

– O que queres tu que vos faça?, perguntou o cão.

– Que nos leves à casa do João e nos ajudes com as obras.

– Obras?!, rosnou o Lanzudo.

– É coisa pouca, disse a tremer o João. Só ajudar a fazer uma porta mais segura para não nos atacarem, andam por lá raposas!

Diz o “mestre de obras”: . Vamos logo que páre a chuva e eu levo umas tábuas e um saco com palha.

– Oh, tão querido! E a Serigaita saltou-lhe para o lombo e começou a dar-lhe bicadinhas, beijinhos, como ela sabia.

Amainou o tempo e lá foram os “três da vida airada”. À noitinha o cão voltou derreadinho de todo mas muito feliz! “Há lá coisa melhor do que ajudar os amigos e a casinha estava um mimo! E super segura!”, ia falando para si próprio.

Agora tinha de continuar a protegê-los. Iria visitá-los muitas vezes e levar o que pudesse “desviar” do quintal e da despensa: legumes, pão duro, milho, tudo aquilo a que conseguisse pôr os dentes.

E esta amizade fabulosa durou para sempre. Para fazer amigos, não interessam raças, nem cores, nem hábitos diferentes.. Viva a Amizade!

Tenham uma feliz Páscoa com as vossas famílias e os vossos amiguinhos. Um beijinho para todos. Um abraço para “os crescidos”.

(Observação: Reparam que essa é uma estória inacabada. Disponíveis novos “episódios”, se e quando os leitores pedirem…)

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