Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

Para se eternizar no poder, Salazar instalou uma rede de confiança promovendo amigos e familiares.

Irmão de um cunhado seu, Mário Pais de Sousa foi governador civil de Coimbra e Ministro do Interior por duas vezes.

O seu primo Esmeraldo Pais Pratas foi nomeado médico do campo de concentração do Tarrafal.

Mário de Figueiredo, amigo dos tempos de seminário, foi ministro da Justiça, da Educação e presidente da Assembleia Nacional.

O amigo José Marques foi nomeado Presidente da Câmara Santa Comba Dão e deputado.

Mais grave, Salazar redigiu a constituição de 1932 num círculo muito restrito de colegas de Coimbra, sem qualquer consulta pública.

Apesar de ter sido alvo de fortes críticas, de oposição interna permanente, de várias tentativas de golpe, de conspirações e de um atentado à bomba, a sua ambição pelo poder o levou a gerir com mestria a proteção dispensada pelos militares do 28 de maio de 1926, em particular pelo general Óscar Carmona.

Em troca Salazar privilegiava o abastecimento de armas e generosos aumentos salariais às forças armadas – em 1945 concedeu 15% de aumento por receio de golpe.

A isto juntou uma dispendiosa máquina de propaganda chegando ao ponto de afixar cartazes onde apenas figurava o nome de Salazar e três pontos de exclamação.

O próprio Salazar redigiu o seu retrato psicológico difundido pela propaganda: humilde, honesto e um homem sem ambições políticas. Ainda hoje há quem o repita…

No melhor período económico do Estado Novo, entre 1946 e 1973, emigraram dois milhões de pessoas, fugindo à miséria gerada por uma economia baseada em salários artificialmente baixos que concentrava a riqueza nas chamadas “quarenta famílias”.

A corrupção era omnipresente, com Salazar participando e/ou impedindo a sua investigação, perante inúmeras cartas de protesto de Marcelo Caetano e do Cardeal Cerejeira.

A recente polémica sobre a nomeação de familiares para cargos governativos nos partidos do chamado “arco do poder” demonstra que tais práticas são hoje inaceitáveis.

Mas infelizmente, demonstrou também alguma falta de memória coletiva, a falta de leitura e de divulgação de factos históricos relevantes, do que foram estas práticas endogâmicas no passado recente do nosso país.

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