Bruno Gonçalves Gomes, dirigente da Associação Letras Nómadas AIDC, escreve quinzenalmente ao sábados no LUX24.

Nos dias 7 e 8 de Abril de 1971 realizou-se nas proximidades de Londres o Iº Congresso Mundial Cigano, que significou o ressurgir do movimento cigano internacional. Nessa reunião participaram inúmeras delegações de ciganos de quase todo o mundo e figuras ciganas importantes da cena artística mundial como o ator Yul Brynner.

Além de estratégias para melhorar a condição do povo Roma (designação atualmente utilizada a partir deste congresso quando nos referimos aos grupos Kalons, Sinti e Roma), também se adotaram um logótipo/bandeira roma e o hino do povo roma, o Jelém Jelém, que foi escrito por um roma da antiga Jugoslávia que perdeu a sua família no Holocausto onde morreram 1 milhão de roma e não 500 mil como os poucos livros mencionam.

A partir desse dia histórico, grande parte dos países participantes, elegeram o dia 8 de Abril como o Dia Mundial do Cigano. No nosso país [Portugal], esta comemoração começa a ser reconhecida, e mesmo a bandeira e o hino já não são do desconhecimento geral. A institucionalização mundial e comemoração deste dia têm vindo a ser reforçadas devido à possibilidade de comunicação que oferecem meios como a Internet e o correio eletrónico na promoção desse dia.

Já lá vão 48 anos da realização do congresso, os roma são a minoria étnica mais antiga e mais numerosa da Europa com uma população estimada de 10 a 12 milhões de cidadãos.

Um estudo da FRA (Agência Europeia para os Direitos Fundamentais) realizado em 11 países membros da União Europeia onde se inclui Portugal revelam que o povo roma:

Na educação, em média, apenas uma em cada duas crianças inquiridas frequenta a educação pré-escolar ou o jardim-de-infância. Durante a idade escolar obrigatória, à exceção da Bulgária, da Grécia e da Roménia, nove em cada dez crianças Ciganas com idades compreendidas entre os 7 e os 15 anos frequentam a escola; a participação na educação cai consideravelmente após a escolaridade obrigatória: apenas 15% dos jovens adultos ciganos entrevistados concluem o último ciclo do ensino secundário geral ou profissional.

No emprego, em média, menos de um em cada três ciganos tem emprego remunerado; um em cada três ciganos inquiridos declarou estar desempregado, outros afirmaram ocupar-se com trabalhos domésticos, estar aposentados, não poder trabalhar ou trabalhar por conta própria.

Na saúde, um em cada três ciganos inquiridos com idades compreendidas entre os 35 e os 54 anos declarou ter problemas de saúde que limitavam as suas atividades diárias, em média, cerca de 20% dos ciganos inquiridos não estão cobertos por um seguro de saúde ou não sabem se o estão.

Na habitação, em média, nas casas dos ciganos inquiridos vivem mais de duas pessoas num quarto, cerca de 45% dos ciganos vivem em habitações que não têm pelo menos uma das seguintes instalações básicas: cozinha, casa de banho, chuveiro ou banheira no interior da habitação e eletricidade.

Em média, cerca de 90% dos ciganos entrevistados vivem em agregados familiares com um rendimento equivalente abaixo do limiar de pobreza nacional. Cerca de 40% dos ciganos entrevistados vivem em agregados familiares onde alguém foi para a cama com fome pelo menos uma vez no último mês por não ter dinheiro para comprar alimentos.

Metade dos ciganos entrevistados afirmaram ter sido vítimas de discriminação nos últimos 12 meses devido à sua origem étnica; cerca de 40% dos ciganos entrevistados têm conhecimento da existência de leis que proíbem a discriminação contra as pessoas de minorias étnicas, na procura de emprego.

Dados inacreditáveis porque não estamos a falar de países de terceiro mundo, os cidadãos roma estão no velho continente desde o século XIV.

Há um enorme caminho para trilhar, políticas a promover, pois são séculos demasiados de omissão e perseguição que vão perpetuando um ciclo de pobreza do povo roma na Europa.

A convivência e o conhecimento mútuo deve ser, além de outros, a base sobre a qual tem que se estruturar as novas relações entre ciganos e a restante comunidade. Tais relações revelam-se fundamentais para a sobrevivência da comunidade cigana como grupo cultural diferenciado.

Dentro desta temática, a sociedade no seu conjunto, tem de responder com respostas válidas que possibilitem o cruzamento de valores entre ambas as comunidades, que possibilite o surgimento de uma nova “realidade” com cariz mais socializante e salutar, considerando que um estado democrático tem o dever de promover uma sociedade onde o bem-estar seja uma realidade, onde se desenvolvam políticas que realmente corrijam a desvantagem em que estão mergulhados grande parte das comunidades ciganas em Portugal e nos restantes países da Europa.

A Estratégia Nacional para as Comunidades Ciganas que o governo leva a cabo pode ser uma das soluções para minimizar a situação, mas tem que haver mais sensibilidade e compromisso dos decisores políticos portugueses, sobretudo a nível do poder local.

Todas as políticas a serem levadas a cabo com os ciganos têm que contar com a participação dos mesmos, caso isso não aconteça, poderá comprometer a eficácia da sua execução. É importante não esquecer que existem indivíduos ciganos com muito valor e sendo conhecedores da sua cultura, devem ser “ouvidos” e integrados no desenvolvimento de todo o processo da estratégia nacional para as comunidades ciganas. Felizmente, o governo atual tem conseguido dar algumas respostas, principalmente alterando metodologias de atuação do passado, de um trabalho que se deseja com os ciganos e não para os ciganos…

É deveras importante, que todo o universo cigano saiba acompanhar os “novos tempos”. O fenómeno da globalização e o desafio que todos os dias se regista, com os diversos avanços científicos e tecnológicos não podem ser ignorados. Se não houver uma resposta cabal e eficaz a estes desafios e avanços resultantes da globalização, assentes essencialmente numa educação e formação sólidas, serão sem dúvida, o grupo que mais prejuízos irá ter…

Certamente que coisas se vão perder e serão deixadas para trás, porém é importante compreender que não existe nenhuma cultura estática e o povo cigano é disso um testemunho vivo, por onde passou recebeu sempre influências das variadíssimas culturas com que se cruzou e/ou coabitou. Soube sempre assimilar essas influências sem nunca perder a sua identidade e até as aproveitou para seu enriquecimento cultural.

O povo cigano tem passado de tudo ao longo da história: perseguições, degredos, leis anti-ciganas, escravidão, tentativas de extermínio por parte de Hitler. Resistiu sempre, nada nem ninguém conseguiu aniquilar a sua força e desejo de encarar o mundo da sua própria forma!

Não se pode permitir que um “qualquer” conservadorismo e os receios da assimilação “emperrem” as aproximações à sociedade.

As assimilações serão inevitáveis, cabe aos ciganos, saber geri-las para que não venham interferir profundamente na “essência”, que tem de continuar a ser cultivada diariamente para enriquecimento das sociedades onde estão inseridos.

São um povo “sábio”, que soube dar “a volta por cima” perante as adversidades com que se depararam ao longo da sua história. Povo amado, mas também odiado, a sua força e a sua resistência são “invejadas” e “admiradas”.

O futuro também estão nas suas mãos! As gerações futuras terão orgulho daqueles que se erguem e que lutam!…