Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.

Aproxima-se a Páscoa, celebração que, à semelhança do Natal, há muito saltou do calendário litúrgico para o civil. Independentemente da fé de cada um, ou da sua ausência, o local do mundo e a comunidade onde nascemos e crescemos molda-nos e por isso, de alguma forma nós, os portugueses em Portugal e no mundo, somos todos produto de uma cultura judaico-cristã. Celebramos a Páscoa e outras festividades de forma cada vez mais automatizada e consumista, é certo, mas dificilmente escapamos, nestas alturas, à ‘tentação’ de uma ou outra reflexão mais intimista. Esta é a minha.

Muitas vezes queixamo-nos das injustiças que nos sucederam quando, na verdade, as situações que lamentamos foram não apenas criadas por escolhas que fizemos mas, o que é mais grave, tinham como desfecho mais provável o cenário que acabaria por concretizar-se e que, à época, optámos por ignorar. Também é verdade que, até certo ponto, é precisamente essa convicção de que somos capazes de  vencer as probabilidades e contrariar fatalidades que nos confere, em larga medida, aquilo a que chamamos humanidade. É o que nos faz avançar, evoluir, de fracasso em fracasso até ao sucesso, ou a um patamar de sucesso, a que se seguirão invariavelmente novos fracassos  que – para voltar ao mote inicial – raramente, ainda que apenas no nosso íntimo, conseguimos resistir a considerar injustiças.

Se pensarmos um pouco, porém, se existisse, a injustiça como conceito devia ter a sua aplicação limitada àquilo que de mau acontece sem ter sido, consciente ou inconscientemente, convocado.

O pediatra que animava crianças doentes e morreu de cancro, o pai de família fuzilado quando o seu carro foi confundido com o de um bandido, o avião que cai, o jovem assassinado por um louco que não suportava ver um rosto feliz, todas as crianças vítimas de guerras, bloqueios económicos, doenças graves. Acidentes, desastres naturais ou crimes deste tipo têm em comum a imprevisibilidade e/ou a irracionalidade: não há uma razão que os torne inteligíveis e, por isso, não conseguimos processá-los bem. Seres mortais, em boa verdade a morrer desde que nascemos, ignoramos essa vulnerabilidade de forma mais ou menos consciente, porque o contrário faria de cada dia um tormento de ansiedade, angústia e depressão latentes.

Do outro lado da vida, porém, há tudo aquilo por que somos responsáveis. As nossas escolhas. A pessoa para estar ao nosso lado. O trabalho a que nos dedicamos e a convicção e empenho com que o fazemos ou não. As relações que cultivamos, os livros que lemos, as palavras que dizemos e as que calamos. As opiniões que defendemos, as críticas que tecemos, os perdões que avançamos, o que escolhemos e o que recusamos entender. Há quem faça estas escolhas com o coração, há quem seja mais racional, há quem consiga um admirável equilíbrio entre as duas forças e há ainda quem prefira demitir-se de escolher e deixe, tanto quanto possível, o destino tratar de tudo. «Go with the flow», costuma dizer-se.

Da Páscoa se diz ser um tempo de Passagem, de renascimento, desde logo na natureza de que – esquecemo-nos demasiadas vezes – também fazemos parte. Em tempos tão complexos como aqueles que vivemos, aceitar a existência do que não podemos mudar, o imprevisível, e escolher bem o que depende de nós, do que pensamos ao que fazemos e ao que aceitamos, para nós, para os outros e para o mundo, pode ser o caminho, a passagem ou o renascer para uma vida mais… sob o nosso controlo. Tentaremos sempre, erraremos muito, venceremos a espaços, mas sejamos ao menos capazes de assumir tudo: as tentativa, os erros, as vitórias, as motivações e as consequências.

E recomecemos, uma e outra vez, como escreveu Miguel Torga no seu «Sísifo»:

 

«Recomeça….

Se puderes

Sem angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

 

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças…»

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