Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais.

O amor é, entre muitas coisas, uma das forças que move o Mundo. No entanto, ainda nos questionamos acerca da sua origem, essência, ou até mesmo importância.

Diversas disciplinas andam há anos a tentar encontrar uma resposta certa e definitiva à eterna questão “o que é o amor”. Muitos estudos e reflexões filosóficas depois, podemos, pelo menos, afirmar que o amor é um cocktail químico de hormonas e neurotransmissores que disparam no nosso cérebro.

Assim, podemos também inferir que o amor e as relações tal como as vemos hoje, também têm o seu quê de construção social. A ideia que temos do amor, e dos relacionamentos, pouco ou nada mudou durante séculos.

Apenas na segunda metade do século XX é que se começaram a quebrar alguns tabus relativamente à forma como encaramos a sexualidade e os relacionamentos amorosos humanos.

Até à data, e focando-nos principalmente na sociedade e nos costumes morais judaico-cristãos, os relacionamentos amorosos eram vistos como sendo em exclusivo entre um homem e uma mulher – muitas vezes escolhido por outras pessoas que não os próprios como moeda de troca ou forma de cimentar relacionamos e alianças geo-políticas – cujo principal objectivo era a reprodução e a continuação da família nas gerações seguintes.

Com as mudanças de paradigmas na sociedade que entraram em vigor após a segunda metade do século XX, entre elas a segunda onda do feminismo onde entre muitas coisas era advogada a libertação sexual da mulher, auxiliada pela invenção do contraceptivo oral, a forma como encaramos o amor, começou a mudar.

No entanto, a mudança de mentalidades e costumes, não acontece à mesma velocidade que os progressos noutras áreas, motivo pelo qual ainda existem alguns tabus por volta deste assunto.

Uma inspirada e brilhante TED Talk da autoria da musa dos relacionamentos modernos e psicóloga clínica com uma extensa experiência na área, a Dr.ª Esther Perel, chama-nos a atenção pela forma como temos trabalhado, questionado e evoluído em todas as áreas, mas continuamos a encarar os relacionamentos como desde que há memória.

Ou seja, temos revolucionado a forma como encaramos a nossa alimentação, consumos de recursos, meios de transporte, formas de comunicação, aprendemos e trabalhamos – mas continuamos a seguir os mesmos modelos de relacionamentos que existem há centenas, ou até milhares de anos.

Actualmente, já ouvimos falar e até normalizamos de certa forma, as relações amorosas entre indivíduos do mesmo sexo, a sexualidade fluída, bem como as relações mais fugazes e baseadas meramente na atração física.

No entanto, todos estes modelos de relacionamentos, apesar das suas diferenças entre si, têm uma coisa em comum, estão principalmente assentes num ideal da monogamia.

Para terminar, esta primeira parte, deixo aqui estas questões para reflexão:

-Será que no paradigma actual, em que temos um mundo na ponta dos nossos dedos a ideia de que existe apenas uma pessoa para nós ainda se verifica?

-Será que o ser humano, é por definição monogâmico?

-As novas tendências de relacionamentos como o poliamor e os casamentos “abertos” são uma moda de pouca dura, ou são o próximo passado para o futuro e a evolução natural dos relacionamentos nesta idade pós-modernista e de comunicação mais fácil e rápida que nunca?

Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais, escreve às quintas no LUX24.