Andreia Gouveia, conselheira de comunicação.

Desculpem-me se, numa semana em que mais de 150 pessoas, muitas das quais trabalhavam por um mundo melhor, morreram em mais um acidente de avião, dez crianças no Brasil morreram baleadas e, na Nigéria, cerca de 100 terão perdido a vida soterradas; na mesma semana em que, em Portugal, aos encómios do Dia da Mulher se seguem programas da mais abjeta vileza para com o sexo feminino (e masculino, também, ninguém sai bem daquilo) e continuam a gritar-nos aos ouvidos ecos de sentenças que revelam um perturbado e perturbador machismo na justiça; na mesma semana em que um suspeito de agressão doméstica tenta encontrar a filha (e a mulher), ambas numa casa-abrigo, recorrendo e pervertendo a instintiva solidariedade que acompanha estes apelos, às redes sociais; na semana em que – por último mas só porque me falta o fôlego, porque muitos mais motivos para querer fugir da realidade encontrei por estes dias – uns estrangeiros numa carrinha estiveram prestes a ser linchados na Região Centro porque, também nas redes sociais, se espalhou o boato de que poderiam andar a tentar raptar crianças… dizia eu, desculpem-me se, numa semana destas, com tantas tragédias, já para não falar da Síria ou do Iémen, porque não há coração que aguente aquelas imagens, num tempo de tantas coisas más de tantos graus distintos e origens diversas, eu escolho mesmo fugir para a segurança de um livro.

Mais concretamente para uma distopia, «Kalocaína», considerada a magnum opus da escritora sueca Karin Boye, e escrita em 1940.

O interessante nas distopias, como o orwelliano 1984 ou Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, é que os seus autores projetam os medos (receios, intuições sobre o caminho que está a ser caminhado, leituras pessimistas ou conspirativas do que os rodeia…) do (então) presente num enredo futurista onde estes ‘pesadelos’ se concretizam da forma mais exaltada.

Naturalmente do domínio da ficção têm, para mim, a incontestável vantagem de nos alertar para os perigos dos passos que damos e dos limites em que cedemos sob a pressão de perigos muita vezes apenas imaginados, bem como para a importância de preservar certos valores ou situações – como a liberdade ou o regime democrático – que, ingenuamente, teimamos em dar como adquiridos.

Orwell antecipou, vemos hoje que sem grande atrevimento, a perda da privacidade que o ranking social a que a China, sem grandes ondas mediáticas, está a submeter os seus cidadãos, concretizou para lá da nossa imaginação.

Bradbury, por outro lado, avisou-nos para o perigo de perder a Literatura como repositório de memória, de valores e de causas que nos afastam do imediatismo das respostas primitivas, populistas, aparentemente fáceis e que, afinal, nos transformam em carne para canhão ou no próprio canhão, pronto para ser manipulado ao bel-prazer de uns poucos.

Kalocaína, que me parece ser estranha e injustamente menos conhecido do que estes dois – por ser de uma mulher, ainda por cima bissexual? – explora a ideia da perda total, da entrega absoluta melhor dizendo, da individualidade, para benefício do coletivo e em nome da segurança e da ordem.

Paralelamente, usa a ficção para atacar o último reduto da liberdade de expressão, o pensamento. Se pensamentos, intenções ou convicções guardadas no foro íntimo fossem passíveis de criminalização, quantos escaparíamos a castigos?

O princípio é um pouco o mesmo de O Alienista, de Machado de Assis, onde vemos o encarceramento da loucura ser atrapalhado pela sua difícil definição e delimitação, mas em Karin Boye este poder quase divino não está concentrado num homem, mas num todo-poderoso Estado.

Curiosamente, em Kalocaína, é nos mistérios do amor, mormente no maternal, que reside a semente da esperança e da resistência… Sim, porque o que as distopias também nos ‘ensinam’ é que, como escreve Manuel Alegre, «há sempre alguém que resiste».

Que resistamos às más notícias, às tragédias, às más políticas, aos maus programas, aos maus julgamentos e ao Mal, em geral, também.

Até para a semana.

PS – Continuando na senda da Arte que nos conforta, não resisto a deixar mais duas sugestões: o filme que está na moda, porque o merece, «O Rapaz que Prendeu o Vento», baseado numa história real e que nos lembra que a educação, a escola, devendo ser um direito universal, é ainda assim e sempre um privilégio; e «Berta Isla», de Javier Marías, para já, para mim, o livro do ano, um clássico à partida, uma história e um texto que tem tudo o que temos cá dentro, pensado e sentido, assumido ou não. Daqueles livros que apetece sublinhar a cada duas páginas e não, não é pelos clichês…

De Espanha, ventos e casamentos não sei, de notícias não quero mesmo falar, mas livros bons não faltam.

Andreia Gouveia, conselheira de comunicação, escreve às quintas no LUX24.