Rui Curado Silva, investigador em Física.

A violência doméstica é um assunto que diz respeito a toda a gente. Diz respeito às vítimas e aos agressores, aos seus familiares, amigos e colegas de trabalho, mas também a todos aqueles que nunca lidaram com esta forma de violência que grassa na nossa sociedade.

Não é aceitável que um país com o nosso nível de desenvolvimento económico e cultural continue a apresentar elevadas taxas de mulheres, de crianças e de idosos violentados e assassinados.

Ninguém pode aceitar que no espaço público se continue a justificar os agressores ou os discursos marialvas ou conservadores que hierarquizam os géneros humanos. Não há desculpas para ignorar ou virar costas ao problema.

As múltiplas concentrações que se realizaram por todo o país na passada sexta, por ocasião do Dia Internacional da Mulher, mostraram essa vontade crescente que existe na sociedade de não mais tolerar a violência doméstica, de que as mulheres são as principais vítimas.

Aliás, esta vaga de concentrações em Portugal resulta em grande medida da influência das manifestações feministas que se realizaram no passado ano no país vizinho por ocasião do Dia da Mulher.

Estas manifestações foram despoletadas pelo julgamento do Caso da Manada, em que cinco homens, entre os quais um elemento da Guardia Civil e outro exército espanhol, violaram uma mulher em Pamplona, durante a Festa de Säo Firmino de 2016.

Também o movimento internacional #MeToo, desencadeado pelos casos de violações de atrizes de Hollywood que trabalharam com Harvey Weinstein, tem contribuído para uma maior consciencialização mundial para combater os vários tipos de violência de que são alvo as mulheres.

Em Portugal, foram as sentenças de Neto de Moura a contribuir em grande medida para a mobilização que se verificou na passada sexta.

Mais do que nova legislação caberá a todos lutar por uma maior prevenção deste tipo de fenómenos, desmontando preconceitos sobre os géneros humanos, combatendo a precariedade, o alcoolismo e o marialvismo e, sobretudo, oferecendo uma melhor educação às novas gerações em que o respeito pelo género oposto seja uma componente central do ensino e não apenas um conjunto de frases soltas que se repetem aos alunos durante uma ou duas efemérides do ano letivo.

Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve às segundas no LUX24.