Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração.

A recente visita ao Luxemburgo de uma delegação do Instituto  de Promoção e do Investimento de Macau marcou, sem  dúvida, um estreitamento de relações entre o Luxemburgo e esta região do delta do rio das Pérolas – a baía que separa Macau de Hong Kong.

Com uma população de aproximadamente 50 milhões de habitantes,  as autoridades deste território apostam fortemente no seu desenvolvimento económico e industrial prevendo transformá-lo numa das regiões industriais mais desenvolvidas ao nível mundial.

Sabendo que o seu PIB a coloca no 15° lugar das economias nacionais do mundo, comparando-se assim com o México, a Indonésia, os Países-Baixos, a Turquia e a Arábia Saudita, compreende-se a importância que tais contatos revestem para o Luxemburgo.

Esta abertura de contatos comerciais conta igualmente com a ação desenvolvida pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Luxemburguesa cujo trabalho em rede com 52 câmaras de comércio e indústria presentes em 38 países (incluindo a China e Macau) que, assim,  tem vindo a contribuir para um aumento notável do volume de bens e de serviços entre o Luxemburgo e Portugal – em 2017, mais de mil milhões de euros contabilizados em importações e exportações.

Foi a consonância de alguns nomes desta delegação de Macau, que os nomes de “Agostinho” , e de “Santos”, que me fizeram recordar um capítulo da nossa história do século XVI nessas terras longínquas.

De facto,  foi em 1513, após a conquista de Goa, que o primeiro europeu chegou à China por via marítima,  e mais exatamente à ilha de Ling-Ting situada do outro lado de Macau.  Trata-se de Pedro Álvares, o navegador e explorador português nascido em Freixo de Espada à Cinta que ergueu naquelas terras o primeiro padrão português. Passados oito anos, Rafael Perestrelo aportou na foz do rio das Pérolas. Finalmente, no ano de 1557, após a derrota dos piratas de origem japonesa,  os Portugueses fixaram-se em Macau.

Em 1575 Macau passou a ser  sede de Bispado cuja jurisdição abrangia territórios chineses, coreanos e japoneses, e é dali que os Jesuítas partem para as missionações. Macau transformou-se então num dos pontos nevrálgicos do comércio das especiarias e de muitas outras riquezas provenientes da Índia, de Malaca e do reino de Sião.

Alguns anos antes, em 1569, o porto de Nagasaki (Japão) foi igualmente cedido aos Portugueses fazendo dele a ponte de passagem do comércio sino-japonês do ouro e da prata. Um século depois os Holandeses e os Ingleses tentam apoderar-se de Macau que não cede ao inimigo. Fiel entre todas, tal como o Porto, cidade invicta, Macau terá como divisa “Não há outra mais leal”  e continuará ainda por muito tempo a ser uma província portuguesa em terras chinesas.

Cinco séculos depois esta região da Ásia posiciona-se estrategicamente na conquista de novos mercados mundiais, muito especialmente numa política de financiamento verde e de novas oportunidades de cooperação comercial. Ontem, o comércio português das especiarias, hoje os investimentos chineses à conquista do mundo. Olhares cruzados selando o destino do mundo.

Mas para além dessa conquistas de territórios feita outrora pelas grandes potências, e das conquistas  do atual soft power, muitas outras conquistas imateriais restam por fazer. Conquistas que começaram há mais de um século e que é imperativo prosseguir.   A conquista dos direitos das mulheres. Foi há cem anos que as mulheres portuguesas viram legitimado o seu acesso a funções públicas, mas sem o direito de aceder a cargos dirigentes nem o direito de voto.

Foi unicamente em 1974 que nós, mulheres, obtivemos esse direito universal – uma das grandes conquistas dos direitos femininos.  Em 2019, para lá da igualdade salarial que continua a fazer de nós cidadãos de segunda classe, a conquista da dignidade feminina e o direito ao respeito humano é algo que ainda não se tornou realidade.

Em França, de três em três dias, morre uma mulher vítima de violência conjugal; na Alemanha mais de cem mil mulheres são vítimas de  maus tratos por parte dos maridos, namorados ou companheiros; em Portugal, e nas comunidades portuguesas da Diáspora,  sabemos qual é a situação de centenas de nossas companheiras e o número de vidas ceifadas pela mão dos homens.

Uma estatística realizada ao nível mundial aponta para números quase irreais:  as mulheres vítimas de violência doméstica atinge 65,64 % na África Central, 41,75% na África do Oeste, 41,73% no sul da Ásia, 21,32% nos Estados Unidos da América e no Canadá e 19,3% na Europa Ocidental.

A Convenção de Istambul, compromisso  do Conselho da Europa assinada em 2011, para a eliminação da violência doméstica e de género deve, imperativamente, continuar a ser avaliada na sua implementação. Há dois meses, os peritos que analisam a situação dos países signatários desta Convenção, emitiram um relatório com 55 recomendações a Portugal, das quais 15 requerem uma aplicação imediata. As notícias que nos têm chegado ultimamente ultrapassam o entendimento humano.

Nós, mulheres, não podemos deixar que a humilhação continue. Há que lutar. Há que não ter medo. Há que ajudar e encorajar as vítimas a denunciar o indizível, o horrendo.

Devemos dizer BASTA, tal como o escreveu tão bem em 1977, a grande escritora Maria Teresa Horta : “ Basta – digo -/ que se faça / do corpo da mulher / a praça – a casa / a taça/ a água / com que se mata / a sede / do vício e da desgraça”.

 

Mili Fernandes-Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração