Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração.

Uma melodia, já bastante antiga, cantada por Tony de Matos, a canção “Lado a lado”, despertou há pouco na minha mente. Uma outra veio a seguir, menos antiga, da banda Deolinda, “Canção ao lado”.

E neste ecoar do lado a lado, voltei a pensar que é de facto, lado a lado, que vivemos no Luxemburgo. Não, não vivemos uns com os outros. Vivemos simples e dramaticamente ao lado uns dos outros. Nós, os Portugueses, de um lado, e os nossos amigos Luxemburgueses, do outro.

Ignorando-nos mutuamente, ignorando as diferentes formas de viver, ignorando a história que marcou o processo de construção dos nossos países respetivos. Sim, claro, sabemos bem que existe uma faixa da população cuja tendência se inscreve nitidamente num esquema de rejeição dos estrangeiros.

E que tais tomadas de posição nos levam, cada vez mais, a distanciarmo-nos da realidade do país onde vivemos. No entanto, não podemos ignorar que existe uma outra percentagem da população cujo mérito é o de reconhecer a importância dos tais 48% de residentes não-Luxemburgueses.

O medo dos estrangeiros, esses medos abissais que subsistem desde as grandes ocupações francesas, austríacas e alemãs, acabaram por despoletar as guerras linguísticas, tão atuais, que impedem grandemente a integração das várias comunidades estrangeiras. Mas, verdade seja dita que, nos finais dos anos 60, a situação ainda era bem mais complexa porque uma grande parte da população só falava alemão e luxemburguês.

Agora chegámos a uma fase em que a língua portuguesa passou a ser a primeira língua veicular de 18% da população do país. Uma comunidade socialmente organizada com associações diversas e variadas, mas que existem numa quase total autarcia cultural, com eventos unicamente dirigidos a uma população lusófona.

E, paralelamente, uma parte da sociedade luxemburguesa, amuralhada nos seus recônditos linguísticos, reproduz um sistema de organização social e cultural semelhante ao nosso.  É o tal viver lado a lado.

Após várias décadas de presença portuguesa neste país, que sabemos nós uns dos outros? Qual é o nosso interesse pela história do país que escolhemos para viver?  E de que modo mostramos a nossa própria história e cultura?  Qual é o interesse pela nossa própria história para a podermos promover e divulgar?

Ao falar da história de Portugal, lembro-me que, há dois anos, quando esteve patente no Museu Nacional do Luxemburgo uma grande exposição sobre os descobrimentos portugueses, muito poucos Portugueses, dos noventa mil que somos, participaram nas visitas guiadas em língua portuguesa.

Uns, porque “já tinham aprendido na escola”, outros, porque não lhes foi incutido nem explicado o interesse que tal exposição representava para a nossa comunidade. A este propósito, desejo aqui referir que os responsáveis de confederações, federações e associações portuguesas falharam na responsabilidade moral que, creio, é a deles – nenhum, absolutamente nenhum deles, tomou a iniciativa de levar os seus membros e famílias ao Museu para ver e admirar os objetos excecionais que marcaram a nossa própria história.

As visitas guiadas em língua portuguesa ficaram muito aquém do número de público lusófono que se havia esperado. Passaram ao lado, demonstrando, assim, perante os esforços feitos pelas autoridades portuguesas e luxemburguesas que, finalmente, esse orgulho de ser português e de participar na promoção cultural e histórica do nosso país além-fronteiras é algo que lhes está alheio.

Teria sido uma oportunidade única para descobrir objetos de valor inestimável que, mesmo em Portugal, estão raramente expostos ao público. Bem como teria sido uma maneira para aprofundar detalhes históricos contados de maneira lúdica, aprendendo novas páginas da nossa história. Teria sido algo mais a transmitir aos nossos colegas e vizinhos luxemburgueses, para, de volta, receber outras tantas informações sobre a própria história deles.

Assim, voltando à minha reflexão inicial sobre o viver lado a lado, não posso deixar de pensar que, em alguns casos, a questão linguística não é unicamente uma barreira, que impede o viver juntos, é uma desculpa.

Por não fazer o que mais gosto

Eu canto com desgosto, o facto de aqui estar;

E é a mudar que vos proponho!

Não é um passo medonho em negras utopias;

É tão simples como mudar de posto na telefonia.

Proponho que troquem convosco e acertem com a vida!

(Deolinda, Canção ao Lado)

 

Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração, escreve aos domingos no LUX24.

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