Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados.

Eu ainda sou do tempo em que o horário nobre da televisão era à noite. Geralmente existia um telejornal às 20:00 e seguia-se uma telenovela brasileira que era acompanhada por cerca de 125% dapopulação portuguesa (sim, os cães e gatos também viam).

O sucesso desta programação era tão grande que os atores das telenovelas eram inclusivamente nomeados reis do Carnaval de Ovar e do Carnaval de Torres Vedras, onde atores portugueses consagrados como Beatriz Batarda ou Nuno Lopes nunca chegaram.

Nessa altura todos chegavam ao trabalho e discutiam as aventuras do Sinhozinho Malta e o país quase parava depois das oito da noite.

Nos dias de hoje é a partir das oito da manhã que o país pára. Bem, não a partir das oito que o pessoal não gosta de acordar cedo mas pronto, a partir das dez, todos arranjam um espaço entre duas reuniões para ver televisão.

Numa altura em que a taxa de desemprego caiu bastante acaba por ser surpreendente esta corrida às televisões ao começar do dia, mas a explicação talvez seja a hora de saída do trabalho.

Se o Português costuma sair do seu emprego por volta da uma da manhã porque senão até parece mal, as primeiras horas do dia de trabalho são gastas a ver televisão pelo computador, até porque jogos de futebol a essa hora só na China ou no Japão.

Daí que o acontecimento televisivo do ano já tenha sido e ainda o ano mal começou. E também num dia que ainda tinha mal começado. Ninguém em Portugal deve ter perdido o Programa da Cristina. Eu como sou emigrante perdi, e como acontece como todos os comentadores de órgãos de comunicação social não vou escrever sobre algo de que apenas vi extratos. E num ano que ainda vai em apenas onze dias, além do momento alto do ano na televisão também já teve o momento mais polémico do ano na televisão e, imagine-se de manhã e à mesma hora. Estou a falar da entrevista a Mário Machado.

Na altura, quando ouvi falar que tinham dado voz a uma pessoa da extrema-direita que foi condenada a crimes graves achei mal. Mas, como fazem todos os comentadores de órgãos de comunicação social decidi ver a entrevista na íntegra antes de dizer alguma barbaridade.

E isso fez-me mudar de opinião. A cada pergunta, fosse ela mais ou menos arrojada, os argumentos para defender o ponto de vista dos nacionalistas eram tão fraquinhos mas tão fraquinhos que, pensava eu, qualquer pessoa ia ficar convencida que tudo aquilo era uma grande parvoíce e que dar a voz a pessoas com estas ideias era provocar o seu suicídio político.

Mas a verdade é que isso não aconteceu. Lendo comentários à própria entrevista, vendo partilhas no facebook rapidamente mudei de opinião (A minha opinião é um cata-vento, não sei como é que me deixam escrever textos de opinião).

Pensava que qualquer pessoa ia achar aquelas ideias parvas e perceberia que fugir às perguntas sobre o nazismo e o fascismo significa que essa pessoa tem alguma simpatia por essas ideologias. Mas não. Alguém dizer mal dos políticos e do governo é que interessa.

Quem não tem papas na língua é que é corajoso. E essas pessoas merecem confiança.

De facto é uma grande coragem nos dias de hoje. Não conheço ninguém com coragem para dizer mal dos políticos. Nunca vi ninguém a dizer mal deles num táxi, num barbeiro, na mesa de um café ou mesmo na televisão. Nunca vi um único comentário contra a classe política nas redes sociais. É preciso vir alguém com registo criminal para ter essa coragem. Mesmo que seja alguém que defende regimes em que dizer mal do governo é proibido.

Ou então não. Se calhar todos dizem mal quando lhes apetece e isso é mera demagogia.

Depois de tantas mudanças de opinião acho que vou é inventar um provérbio para acabar o texto:

Levantar cedo e o programa da manhã ver dá saúde e faz crescer a extrema-direita.

 

Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve às sextas no LUX24.

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