Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais.

Começando este texto com um cunho mais pessoal, e por estar de momento na azáfama das preparações finais do “meu” festival, creio que não há melhor tema para abordar nos próximos tempos que este – o poder e o papel da música nas nossas vidas.

Todos nós – ou pelo menos a grande maioria – temos aquela música que nos provoca um arrepio na espinha, que pode influenciar o nosso humor, ou que nos faz lembrar um alguém especial. A música é omnipresente nas nossas vidas, acabando por ter um papel de destaque nos momentos de convívio social.

O filósofo existencialista alemão Nietzsche imortalizou a frase “A vida sem música seria um erro”, com a qual concordo plenamente. A verdade é que desde as origens que os humanos têm tido música a acompanhá-los nos momentos mais solenes de maior significado. Desde os cânticos ritualistas do paleolítico às polifonias feitas com recurso a programas informáticos, que o sentido e a importância da música não mudaram. Mudaram as “modas” e os meios de composição, mas a emoção permanece a mesma.

Começando por olhar para a nossa relação com a música pela a via das neurociências, reparamos que a resposta emocional que esta desperta no nosso cérebro é semelhante à das drogas.

A música é um estimulador dos neurotransmissores do prazer como a serotonina, pois as áreas cerebrais que processam esta resposta – a amígdala e o sistema límbico, são as mesmas que se ocupam da regulação emocional (como por exemplo a resposta de “fuga ou luta” em situações de medo).

Outros estudos recentes, por sua vez, revelaram que o ser humano é capaz de utilizar um vocabulário mais elaborado e vasto no reconhecimento das suas emoções quando estas são provocadas pela música que está a escutar, e que tem um espectro muito maior de respostas emocionais quando em contacto com música que seja do seu agrado.

No entanto, o processo criativo da música, estimula muito mais áreas cerebrais – e é um processo extremamente complexo – que está relacionado com a nossa forma de comunicação (tanto verbal como não verbal). Esta descoberta deveu-se ao caso Shebalin. Vissarion Shebalin é um compositor russo do Séc. XX, que quando em 1953 teve um AVC, ficou com uma paralisia lateral do lado direito e com as áreas da produção da linguagem muito comprometida. No entanto, continuou a compor música, tendo a sua 5ª sinfonia, que foi composta após este episódio, se tornado o trabalho com maior reconhecimento.

Com isto, ficamos a perceber um pouco melhor que – o processo de compor música e de a ouvir são diferentes e envolvem mecanismos e áreas cerebrais diferentes, sendo o primeiro muito mais complexo – e que a música pode ser uma forma de comunicar independente do desenvolvimento da nossa linguagem, abrindo assim possibilidades infinitas para apoiar indivíduos com diversas problemáticas e com dificuldades de comunicar utilizando a linguagem verbal “comum”.

Ou seja, a música é uma das mais belas e complexas criações do ser humano – e as possibilidades e efeitos positivos desta nas mais diversas áreas das nossas vidas são imensas. A música é uma fonte de vida enorme!

 

Rita Limede, psicóloga e produtora de eventos musicais, escreve às quintas no LUX24.

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