Andreia Gouveia, assessora de imprensa.

(Onde imaginamos o Professor Marcelo a comentar o Presidente Marcelo)

«E agora para algo completamente diferente». Os indefetíveis de Monthy Phyton conhecem bem esta deixa e o que ela anunciava: mais um brilhante trecho de farsa/comédia dos britânicos que mudaram o sentido de humor a uma escala global.

Em Portugal, depois de um Presidente da República lacónico e frio escolhemos, «para algo completamente diferente», Marcelo Rebelo de Sousa.

Uma opção, ainda assim, bem diferente de outras que têm estado a ser feitas em diversas partes do mundo, onde cantores, atores ou palhaços são chamados a assumir cargos públicos relevantes, num movimento que, julgo, nasce da confluência de duas circunstâncias: a de os eleitores quererem mostrar um cartão vermelho aos (partidos) políticos mais tradicionais por os sentirem cada vez mais desfasados da realidade e das preocupações das pessoas reais, e a de uma crescente vulgarização, dessacralização se preferirem, destas funções, que antes nos surgiam revestidas de uma aura de solenidade.

Sim, houve um tempo em que nos era lícito crer e querer que os nossos deputados, por exemplo, fossem os mais bem preparados entre nós, os mais inteligentes, argutos, íntegros e eloquentes.

De alguma forma, Marcelo Rebelo de Sousa era a solução que fundia este valor do passado, de valor intelectual, e o do presente, de homem de carne-e-osso, que ri, brinca, se emociona e está mais próximo das pessoas. E eu não vou mentir: comecei por gostar. Da afetividade, da omnipresença nos locais de tragédia aonde, não sendo efetivamente útil, chegava com o peso da sua solidariedade, que era afinal a nossa. Era diferente do que conhecíamos e era bom.

Depois, «para algo completamente diferente», Marcelo Rebelo de Sousa manteve-se igual a si próprio. Ao comentador. Ao Professor. A dar opinião pública sobre tudo, de questões do mundo do futebol às mais insignificantes polémicas do dia.

Assisti, com aquela sensação desconfortável de vergonha alheia, a verdadeiras emboscadas de jornalistas ao Presidente da República, à saída de um ou outro evento. Não lhe perguntavam sobre um ou dois temas relevantes. Perguntavam-lhe sobre tudo, sabendo de antemão que eram grandes as probabilidades de obterem umas palavras do mais alto magistrado da Nação capazes de justificar uma notícia de primeira página.

Porque até o tema mais insignificante ganha honras de parangonas se o Presidente da República lhe dá crédito, atenção, palavras. Cheguei a temer que comentasse o último episódio de alguma novela. Acho que não aconteceu, mas não garanto.

Em Portugal, depois de um Presidente da República lacónico e frio escolhemos, «para algo completamente diferente», um representante que não representando o sentir da maioria dos portugueses, nem o seu, chama irmão a um recém-eleito de qualidades democráticas e humanas muito duvidosas.

Respeito institucional para com um país com uma larga comunidade portuguesa? Claro que sim. Respeito pela vontade democraticamente expressa dos brasileiros? Tudo bem. Mas não era preciso ser mais papista do que o Papa, não era preciso nem chamar-lhe irmão nem acelerar um convite para uma visita a Portugal. De Monthy Phyton passamos para o Diácono Remédios: Não havia necessidade.

A terminar, o Presidente dos Afectos decidiu mandar um beijinho público a uma figura pública do entretenimento, para tanto interrompendo uma reunião de trabalho. Um puxão de orelhas camuflado à concorrência, no dia seguinte a terem dado voz a um assassino com uma ideologia anticonstitucional? Há quem pense que sim. Há quem pense que não, que foi só o Professor a ser o Professor.

Eu só lamento não poder ir a um universo paralelo, em que o comentador Marcelo pudesse ainda tecer considerações sobre estas bravatas do Presidente Marcelo. Quase o consigo ouvir, debruçado sobre a mesa do estúdio, a mão a avançar em direção ao Júlio Magalhães, a bater aberta ora à direita ora à esquerda (aqui sem conotação política):

«Ir ao Brasil representar o País, na sequência de um acto eleitoral? Bem. É respeitar a democracia mesmo quando não gostamos do resultado e é defender os portugueses que lá estão. Chamar irmão e convidar para uma visita a esta distância temporal? Mal. Não representou o sentir dos portugueses nem, como se sabe, o seu, e pode ter colocado o país numa situação delicada porque, a acontecer, a recepção ao Sr. Bolsonaro pode não ser a mais feliz. Em relação ao telefonema para a Cristina Ferreira, devia tê-lo feito em privado. O Presidente da República e o Cidadão não podem ser como a Olívia Patroa e a Olívia Costureira, não é um cargo que se possa despir num intervalo para vestir a pele de cidadão comum. Esteve mal, foi um momento de nonsense de Estado e não de Sentido de Estado. Dito isto, o País tem assuntos mais importantes em que se concentrar, porque isto é um fait-divers. Vamos aos livros?»

Conseguiram ouvir e ver na vossa cabeça?

Até para a semana, vou atender um telefonema…

 

Andreia Gouveia, assessora de imprensa, escreve às quintas no LUX24.