Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração.

Vimos aqui a semana passada como as festas pagãs de Roma que tinham lugar nos finais do ano acabaram por fixar a data da festa cristã da Natividade. E a tradição da Festa dos Reis decorre igualmente dessa época remota. No início ou no fim das ditas festas Saturnais havia o hábito de organizar um banquete durante o qual os Romanos escolhiam um escravo como «rei de um só dia» , esperando, com esta inversão de estatuto social, que o destino lhes trouxesse prosperidade.

Durante esse banquete serviam um bolo que continha uma fava (a fava já era utilizada pelos Gregos para elegerem os magistrados!), fava  que servia para designar o «rei saturnal ou rei da desordem». Tal como hoje ainda é tradição, o bolo era cortado no número de fatias que correspondia ao número de convidados.

No momento de servir o bolo, uma criança, cuja idade de inocência representava o oráculo de Apolo, tinha de ir para debaixo da mesa e, questionada pelo chefe de família, ia dizendo o nome do convidado a quem a fatia de bolo devia ser servida. O convidado a quem calhava a fava era eleito Rei –  obviamente, com autoridade limitada. No decorrer dos séculos, tantos os calvinistas, como os luteranos, bem como uma boa parte de católicos, recusaram-se a aceitar este costume pagão.

Em 1792, durante a Revolução francesa  que veio abolir a monarquia, o Dia dos Reis foi substituído por “Dia dos sans-culotte” (uma expressão dada pelos aristocratas aos trabalhadores e aos artesãos que participaram na revolução), sendo que foi proibido comer a “galette des rois”. Mas, pouco tempo depois os ditos “sans culotte” acabaram por chamar “Festa da boa vizinhança” ao dia da Epifania. E, dois anos depois, um decreto republicano recomendava que se partilhasse nesse dia a “Tarte da Igualdade”, mas… sem fava. Ainda hoje, a tarte que é oferecida ao palácio do Eliseu (presidência da república francesa) não contém nenhuma fava. Em memória da Revolução e em referência aos valores republicanos.

Os leitores /seguidores do LUX24, elegeram Félix Braz, o novo vice-primeiro ministro do Luxemburgo, como “Personalidade do Ano. E muito bem. O seu percurso tendo vindo a demonstrar a sua capacidade de liderança e a sua inteligência política, muito especialmente na pasta da Justiça. Podemos estar-lhe gratos pela maneira como conseguiu finalizar e fazer votar a lei da nacionalidade. Sabemos que tal lei está aquém do que era esperado, mas, na constelação política de então, foi o melhor texto que podia ter sido promulgado.

A família Braz é algarvia, originária de Castro Marim. De um certo modo, esta vila  torna-se pouco a pouco famosa por ser o berço desta família. Mas também é famosa porque foi ali onde nasceu a mãe do grande guitarrista espanhol Paco de Lucía. No entanto, já antes, muito antes, os Fenícios, os Cartagineses, os Romanos e os Muçulmanos passaram por lá. O castelo é um marco histórico da nossa cultura. A reconquista cristã no ano de 1242 veio reforçar o povoamento daquelas terras, sendo que o rei D. Dinis fará de Castro Marim a sede da Ordem de Cristo, a Ordem criada para substituir a Ordem dos Templários que, sob instigação de Filipe O Belo, rei de França, tinha sido abolida pelo Papa em 1319. A Ordem de Cristo manteve-se ali até 1356, ano em que o rei D. Pedro I a transferiu para Tomar. O castelo de Castro Marim foi igualmente residência do Infante D. Henrique que, a partir dali, terá avaliado e planificado algumas rotas comerciais em África.

Castro Marim também foi conhecida por “terra de degredados”. Sim, porque D. Manuel I institucionalizou o degredo para África, Brasil e Índia.  Determinando, no entanto, que os idosos de idade avançada podiam cumprir o desterro dentro do Reino, isto é, em vários coutos no Alentejo e, em Castro Marim. Um outro detalhe histórico interessante liga-se ao ano de 1580. Uma sentença da Junta dos cinco governadores que reconheceram Filipe II de Espanha, como rei de Portugal, foi redigida em Aiamonte, mas a sua proclamação foi festa em Castro Marim.

“Está Castro Marim situado na cabeça de um monte alto, de todas as partes cercado de mar, e o sítio bem acomodado ao lugar, que é fronteira de Castela” (crónicas do século XVI).

Embora hoje só subsistam praticamente ruínas, do ponto de vista histórico vale a pena descobrir a vila raiana de Castro Marim, o seu castelo, as salinas, a reserva natural, bem como “Castro Marín” a música de Paco de Lucía dedicada à sua mãe.

Quanto ao “nosso” vice-primeiro ministro, esperamos que prossiga o caminho de um grande político e inspirador de futuros políticos portugueses ou lusodescendentes.

 

*Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração, escreve aos domingos no LUX24.

 

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