Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração.

Quando ao descolar ou ao aterrar do avião ouço a hospedeira a fazer os anúncios da praxe, em francês, alemão, luxemburguês, inglês e português a minha emoção é deveras enorme.

E, cada vez que tal acontece, volto a pensar: quanto caminho percorrido, quantas batalhas travadas, quantas derrotas, e quantas conquistas para que este anúncio se tornasse realidade!

É certo que, em termos comparativos com outros sistemas educativos, a taxa de insucesso escolar das crianças lusófonas continua muito acima da média normal. E é sabido que, durante todos estes anos de presença portuguesa no Luxemburgo, centenas, senão milhares, de crianças lusófonas, acabaram por fazer parte dessas estatísticas aterradoras.

O balanço feito demonstra que as potencialidades de todas essas crianças e desses jovens não foram devidamente reconhecidas nem apoiadas. Porquê? Porque o sistema educativo luxemburguês não teve, nem tem ainda, uma resposta que responda às necessidades da população cujas origens culturais e linguísticas não se inserem nos parâmetros nacionais.

No entanto, alguns desses jovens, graças não somente a grandes esforços pessoais, mas também ao acompanhamento feito pelos pais, alcançam resultados escolares que lhes permitem entrar no mercado do trabalho ou prosseguir formações superiores.

Especialistas e investigadores na área do ensino e das ciências cognitivas e pedagógicas têm vindo a provar que a importância da língua materna é essencial para que a abordagem de outros idiomas possa garantir um resultado positivo no processo da aprendizagem.

Aqui no Luxemburgo, por exemplo, a investigadora Pascale Engel de Abreu, no seu estudo sobre o plurilinguismo demonstra que a influência da língua materna é capital para que o cérebro desencadeie todo um processo que lhe permite uma espécie de musculação que o capacita a absorver outras informações. E, daí decorrem maiores capacidades de tratamento e de assimilação de outros idiomas geridos por essa grande máquina que é o cérebro.

E porque é que tal acontece assim? Porque a língua materna não é somente um instrumento. A língua materna é uma componente básica da nossa alma, uma componente que materializa a nossa própria cultura. Um pouco à maneira do leite materno que alimenta o ser humano nos primeiros períodos da sua existência. A língua materna é o edifício onde guardamos e organizamos os dados recolhidos no decorrer dos anos. E é através desse grande stock de informações, recolhido na língua materna, que desenvolvemos os potenciais de aprendizagem de outras línguas.

Ora bem, dentro deste contexto que acabo de abordar, dei conta que após todos os esforços levados a cabo durante estes últimos anos, mormente pelos Serviços de Ensino, pela Confederação da Comunidade Portuguesa e pelas associações de pais do Luxemburgo, para que a Língua Portuguesa ocupe o lugar que lhe é devido no sistema de ensino luxemburguês, tenho o pressentimento de que, finalmente, os pais tendem a baixar os braços.

Isto é,  tendem a seguir o “canto da sereia” e a optar por uma via contrária às metas que levámos anos a defender e cujo valor já foi mais do que demonstrado pelos peritos nesta matéria: a aprendizagem da língua materna é um dos valores  que garante aos nossos filhos o êxito escolar num sistema de ensino em que diferentes línguas colidem. E que os alicerces que garantem o êxito escolar não são necessária e unicamente o aprofundamento da língua alemã, por exemplo.

Deste modo, torna-se necessário continuar um trabalho de terreno, informando e interagindo com os pais e os educadores, para que a aprendizagem da língua materna prossiga o caminho que lhe traçámos fora do seu contexto nacional.

É que, se tal não acontecer, isto é, se o desinteresse dos pais for identificado pelas autoridades locais, nunca poderemos concretizar o sonho que tem vindo a ser acalentado desde há décadas:  diminuir a taxa de insucesso escolar dando prioridade ao desenvolvimento da língua materna.

Uma herança que nós, pais, temos, por dever, que transmitir aos nossos filhos. Fazer da nossa língua materna uma força.

Só com essa forte presença do ensino da Língua Portuguesa poderemos ajudar a valorizar a nossa própria Cultura.

 

*Mili Tasch, Guia conferencista e presidente do Centro de Estudos sobre a Emigração, escreve aos domingos no LUX24.