Pedro Cunha, escritor e cineasta.

Esta longa-metragem americana, realizada por Steven Soderbergh, é um psicothriller, rodado inteiramente com um iPhone, confirmando que o realizador ainda não está pronto para se reformar.

O medo emanado pela personagem principal “Sawyer Valentini”, encarnado por Claire Foy, é excepcionalmente verosímil!

Não é apenas uma questão de recursos visuais apressados pelo formato escolhido pela realização, o 14:9 que é o aspecto comprimido do 1.56:1 (adaptado a televisores 4:3 e 16:9), apesar de tudo parecer provisório e indiferente, como um esboço de carvão amassado sobre uma folha de papel cavalinho de uma forma crua!

Qual é a reacção de uma pessoa que sente ser perseguida? Que sentimentos provoca essa sensação?

 

 

A narrativa de “Unsane” mergulha de forma intensa nesta imagética sensorial, onde o refúgio numa instituição mental estéril para uma sessão de terapia experimental pode ser tudo, menos o melhor escape a um perseguidor inveterado.

A questão do medo, aliada ao sistema de saúde e, a dependência das instituições em fazerem “reféns” e “manterem doentes” quem as procura é como que, uma ilustração do capitalismo insano. O controle sobre a vida dos outros de um modo aterradoramente alarmante muitas vezes ultrapassa o contexto da ficção.

Por isso, duvidar da sanidade de “Claire Foy” ao longo do filme, é como um jogo, nos dias de hoje. A vítima de um predador sexual é convenientemente vista pelos médicos como algo, inventado ou fruto da sua própria imaginação adiando-se sistematicamente a liberdade. No fundo, se “Foy” realmente enlouqueceu, não é apenas o perseguidor que a levou a isso.

Regressando ao iPhone, é excepcional a grande coragem da actriz nos muito grandes planos (close-ups), mesmo os mais desconfortavelmente próximos (na escala) que ela recebe sob o olhar do realizador para imprimir uma imagem ainda mais impactante e crua sobre toda a emocionalidade inerente.

Este filme, de baixo orçamento, rodado em apenas duas semanas é algo experimental, faltando-lhe uma pequena dose de originalidade, mas na verdade a exploração do medo numa situação extrema como esta, é incontornável.

“Unsane” foi seleccionado para estrear na 68ª edição do festival de Berlim, em Fevereiro deste ano e venceu o galardão Golden Trailer Awards como melhor thriller.

Esta história solicita o julgamento constante do espectador, fornecendo sugestões para que se mude de ideia a cada dez minutos de filme.

 

*Pedro Cunha, escritor e cineasta, escreve às sextas no LUX24.