Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados.

Este fim-de-semana estive em Portugal e apercebi-me de alguns episódios comuns a todos aqueles que vivem fora do país e que regressam para uns dias em Portugal.

 

Passar muito frio

A maioria dos destinos de emigração de portugueses são locais mais frios. Mas apenas em teoria. É verdade que quando andamos na rua de um país do Norte da Europa levamos um agasalho extra, mas quando entramos num qualquer edifício ou mesmo numa tenda de campismo a temperatura é semelhante à Praia da Rocha em Agosto. Em Portugal até se consegue andar de manga curta no Inverno, mas entrar numa casa portuguesa é como entrar numa tundra siberiana acima do Círculo Polar Ártico (não sei porque este verso não faz parte da canção). Quando abro a porta de uma casa portuguesa tenho sempre medo de encontrar um urso polar enrolado numa folha de alumínio para não morrer de hipotermia.

É por isso normal que os nossos pais e avós fiquem a pensar que as pessoas constipam-se por andarem descalças dentro de casa. Toda a gente sabe que o dress code dentro da casa portuguesa é um casaco com pele de mamute e um par de esquis. Não é muito higiénico andar calçado dentro casa e provavelmente até causa mais doenças do que andar descalço, mas percebo perfeitamente que exista um risco sério de amputação por falta de circulação sanguínea nas extremidades.

 

Não ter tempo para nada

Antes de irmos a Portugal planeias idas ao banco, à câmara ou às finanças, visitas a familiares, jantaradas com amigos e encontrar casualmente aquele colega da pré-primária de quem já não te lembras do nome. Quando regressas reparas que não tiveste tempo para fazer nada disso e que ainda não te consegues lembrar do nome do colega da pré-primária.

 

Passar por especialista em material informático

Todos os portugueses sabem que para alguém ter um visto para trabalhar noutro país precisa de tirar um curso intensivo de reparação de impressoras e de redes wi-fi. Por essa razão, sempre que regressamos a Portugal há uma fila de impressoras avariadas a reparar, uma password para a Internet que mudou por intervenção do Espírito Santo ou uma página de Internet que decidiu mudar as definições do Internet Explorer 3.0 para aparecer sempre a cada clique. Com o armagedão informático que acontece durante os meses que estamos fora é normal que depois não tenhamos tempo para 5% de tudo aquilo que tínhamos planeado.

 

Ganhar Euromilhões a cada mês

Para o português comum, emigrantes e gestores do BES são praticamente o mesmo. As suas contas ficam recheadas muito rapidamente sem se saber como nem em que circunstâncias.

Influenciados por uma tradição de gerações que alugam Mercedes em Agosto para vir à terra natal, muitos Portugueses pensam que emigrar significa ganhar dinheiro à fartazana. E é verdade que se ganha mais uns trocos fora do país, mas o que se paga de renda mensal de um estúdio sem janelas com 2 metros quadrados equivale mais ou menos ao preço de comprar um T4 duplex com piscina em Idanha-a-Nova.

Daí que seja normal ignorarem que só pelo facto de irmos a Portugal estamos a pagar viagens que ao fim de alguns anos são milhares de Euros que não foram poupados.

 

O tempo que anda a duas velocidades

Quando partimos acontece-nos tanta coisa que parece que um ano valeu por cinco e que em Portugal o tempo parou e está tudo igual. Ao final de alguns anos vamos percebendo que o tempo também passa em Portugal mesmo que a uma velocidade inferior. Sítios que mudam, pessoas que mudam, nascimentos e mortes, aproximações e afastamentos. Não é por estarmos longe que as vidas deixam de correr. Parece tudo mais lento do que o fervilhar de emoções e acontecimentos que nos acompanham cá fora, mas mais lento não significa que o tempo parou.

 

Acabar cansado e a precisar de férias

Talvez seja o mais consensual entre emigrantes de todos os países que conheço. Ir à terra natal significa tudo menos passar férias. Por fim, quando se volta a casa chega-se mais cansado do que quando saímos para ir de “férias”, é um custo da omnipresença a que somos obrigados.

Não quero com isto dizer que ir a Portugal é um inferno. Mas regressar não é assim tão fácil quanto aparenta ser para quem está lá à nossa espera.

Mas se continuamos a ir é porque vale a pena e porque há um peso na consciência por estarmos distantes. Não é motivo para nos queixarmos, no fim de contas voltamos sempre com algo mais.

 

*Miguel Torres, Software Developer e Gestor de Dados, escreve às sextas no LUX24.