Andreia Gouveia, assessora de imprensa.

Há muito, muito tempo – em alguns cantos do nosso mundo tão diverso, ainda hoje – os mercadores viajavam de terra em terra, vendendo os seus produtos.

Parte substancial do seu sucesso dependia de não ligar ao que diziam, uma espécie de «o cliente tem sempre razão» dos tempos antigos, tão despido de significado prático para o mercador desse então como para as grandes empresas da atualidade.

Mas se, para os mercadores de ontem ou de hoje, de menor ou maior dimensão, esta até pode ser uma postura asséptica e consideravelmente inócua, para as instituições em que assenta o modo de vida das democracias ocidentais o desfecho é mais incerto.

Quero com isto dizer que não é sem espanto que, a cada dia, ouço, vejo e leio mais pessoas, muitas das quais especialistas reconhecidas em diversos campos de conhecimento, denunciarem o óbvio – que cada vez mais o cidadão comum se distancia das Instituições, não se reconhece nelas nem lhes reconhece valor ou idoneidade -, sem que nada seja feito.

Há quem antecipe o fim da civilização tal como a conhecemos, quem anuncie o regresso de ismos de má memória, quem aposte na escalada de movimentos populistas ou de figuras messiânicas mal-intencionadas.

Eu, confesso, não sei o que vem por aí, mas preocupa-me que quem tem o poder para fazer um ‘mea culpa’ discreto e redesenhar o caminho para um traçado que colha mais adesão popular, não pareça minimamente interessado em fazê-lo. Não se exigem santos, mas os pecados começam a ser excessivos e percebidos pelo coletivo como excessiva e ostensivamente impunes…

Deputados que se declaram presente estando ausentes, ou que selecionam a morada oficial consoante o maior benefício pessoal, num país com um salário mínimo dolorosamente baixo. Políticos que empolam os currículos e apresentam desculpas esfarrapadas quando descobertos os ‘lapsos’.

Sentenças que condenam a pena efetiva o toxicodependente que roubou 6€ mas deixam impune o banqueiro que nos condenou, enquanto povo, a apertar mais uns furos no cinto, para pagar as dívidas que criou.

São estas e muitas outras posturas, atitudes e decisões que, não tão paulatinamente quanto isso, vão afastando o cidadão comum das Instituições que é suposto respeitar e em que é crucial que confie.

Apesar dos muitos interesses em jogo, o que não consigo entender é que as elites que estão a beneficiar destes esquemas não percebam que, se querem manter um mínimo de regalias, têm mesmo de mudar.

Não sei se é o banho de ética que uns já propalaram, mas pelo menos um lavar de rosto para lavar desta sujeira as mãos. Já não é um apelo à boa índole dos ‘donos disto tudo’, é um repto à sua inteligência: ou mudam ou, um dia, não muito longe, isto muda mesmo.

E, parece-me, pode não ser a bem, pode não ser para melhor, para ninguém, incluindo muitos – não todos, já se sabe… – dos que estão habituados a passar ao lado das crises.

Os ouvidos de mercador podem, afinal, levar a um desfecho ao estilo do Mercador de Veneza, com a dívida, neste caso à razoabilidade, à inteligência e à integridade, a ser paga à conta da própria carne. Esperemos que não.

*Andreia Gouveia, assessora de imprensa, escreve às quintas no LUX24.