Tiago Fernandes, dirigente desportivo e político.

Caros amigos, os telemóveis é certo que revolucionaram as nossas vidas. As mais variadas aplicações e avanços tecnológicos dos chamados smartphones permite-nos hoje em dia ter um telefone, câmara fotográfica, mp3, GPS e afins num só aparelho.

À partida é algo útil, prático e intuitivo, que em caso de uma urgência dá imenso jeito. No entanto, há também o lado negro destes aparelhos omnipresentes como a nomofobia (uma abreviação do inglês, para no-mobile-phone phobia) ou seja a dependência e as suas consequências, nomeadamente o seu uso indevido.

Já li algures que o sentimento de perder um telemóvel é comparável a um susto de morte, tal a angústia que isso pode causar num ser humano mais dependente.

O perigo não existe apenas no uso indevido do telemóvel durante a condução. Atualmente, é sete vezes mais provável morrer consequente a uma selfie perigosa do que a um ataque de tubarão, por exemplo.

Esta conclusão que foi noticiada há uns dias na imprensa internacional e baseia-se num estudo indiano intitulado «Selfies: uma dádiva ou uma maldição?» publicado no Journal of Family Medicine and Primary Care.

Segundo este estudo, em 6 anos registaram-se pelo menos 259 mortes de pessoas (73% homens e 27% mulheres) que estavam a tirar selfies e não as contabilizando num contexto de acidentes de viação.

Dois casos destes foram registados em Portugal. As três principais causas de morte são o afogamento, os acidentes envolvendo transportes e as quedas.

Para fazer face a este problema, os investigadores sugerem que sejam criadas zonas em que as selfies sejam proibidas (« No selfies zones »), sobretudo se estiverem localizadas em áreas turísticas próximas de propícios, edifícios altos ou recursos hídricos, como cascatas e lagos.

Dentro desta problemática dos telemóveis, também são feitas imensas investigações sobre o impacto que os mesmos têm sobre a nossa saúde, tanto no nosso organismo como numa vertente mental e cognitiva. Eu creio que é ainda muito precoce para estes estudos serem verdadeiramente conclusivos embora algumas pessoas já compararem os telemóveis à história dos cigarros, não apenas a nível da dependência, mas também por acreditarem serem altamente nefastos para a saúde, a longo prazo.

Contudo e isso é unânime, em termos pedagógicos e no que diz respeito ao desenvolvimento intelectual, um bom livro supera sempre as novas tecnologias.

Alguns países já tomaram medidas pioneiras nesta matéria, como é o caso da França que proibiu em junho deste ano, os telemóveis nas escolas.

O Ministro da Educação chamou este projeto de lei de «medida de desintoxicação», para combater a distração na sala de aula e o ‘bullying’.

Eu sou apologista de que as leis têm que se adaptar à evolução e requer sermos pragmáticos neste caso, mas penso que temos, de igual modo, ser extremamente cautelosos a não descartar o lado bom dos telemóveis. Estou a falar obviamente da segurança.

Em abril deste ano, houve um caso em Cincinnati, nos Estados Unidos, que me marcou. Kyle Plush um adolescente de 16 anos, sempre sorridente e cheio de vida, que terá subido ao banco de trás da sua carrinha para ir buscar um equipamento de ténis, no parque de estacionamento da sua escola, ficou preso no assento e de cabeça para baixo, quando o banco se virou.

Kyle Plush

O adolescente conseguiu, em dificuldade e desespero, através do Siri (assistente de voz pessoal do telemóvel iPhone), ligar para os serviços de emergência e pedir ajuda por duas ocasiões.

Infelizmente, as autoridades não conseguiram localizar o veículo uma vez que a escola de Seven Hills tem vários parques de estacionamento espalhados pelo complexo.

Seis horas depois das chamadas foi encontrado pelo pai, mas o filho já estava inconsciente e sem vida. O adolescente morreu de asfixia devido a uma compressão no peito, segundo os resultados da autopsia.

A bravura de Kyle levou a que os pais criassem a fundação «Kyle Plush Answer the call Foundation» que tem como objetivo melhorar todo o sistema de emergência americano do 112 (9-1-1 nos Estados Unidos) de maneira a que estes casos não se repitam.

Eu cheguei a contactar a família de Kyle através da associação, prestando toda a minha solidariedade e apoio neste projeto. Os pais encaram isto como um dever para honrar a memória do filho, de modo a que ele se orgulhasse deles e não tivesse morrido em vão. Foi doloroso para mim esta troca de mensagens, mas admiro imensamente a coragem desta família.

Tudo isto me levou a uma profunda reflexão sobre a importância que os telemóveis podem ter no caso de uma emergência. A prevenção é fundamental e cabe não só aos sistema do 112, mas também a nós adaptarmo-nos aos serviços e às tecnologias atuais, educando os nossos filhos também nesse sentido.

Fiquei feliz, por esta semana o governo Luxemburguês lançar a aplicação «GouvAlert.lu», disponível na Apple Store e Google Play.

Esta plataforma inovadora não só permite prevenir a população de incidentes de grande dimensões, mas também permite ao utilizador, que introduza os seus dados de forma prévia, contactar o 112 através da mesma, facilitando os serviços de emergência a localizar instantaneamente a pessoa e intervir mais rapidamente. Um sistema desses teria salvo a vida de Kyle Plush.

Em França, após os terríveis e sucessivos ataques terroristas, foi também lançada uma aplicação similar chamada SAIP (em francês, Système d’alerte et d’Information des populations) e serve para informar a população não só nestes tipos de ataques, mas também no caso de um acidente nuclear, ataque químico, incêndio florestal, sismos e inundações, por exemplo.

O meu desejo é que brevemente haja uma plataforma única na União Europeia que seja eficaz e intuitiva, duplamente funcional como no Luxemburgo e de modo a que o maior número possível de pessoas possa aderir.

Os telemóveis devem salvar vidas e não o contrário. No entanto, essa vontade de limitar os riscos, prevenir-se e aderir às novas tecnologias tem de partir, em primeiro lugar, do usuário.

Até para a semana!

*Tiago Fernandes, dirigente desportivo e político, escreve semanalmente aos domingos no LUX24.

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