Ramsés Nunes, historiador brasileiro e ativista musical.

A imagem do Museu Nacional na Quinta da Boa Vista (Rio de Janeiro) a arder em chamas é simbólica. Me fez chorar como se perdesse um amigo.

Representa muito mais do que um prédio histórico que desaparece em tempo real. Representa a própria alma brasileira, a arder sem descanso, nos últimos meses. Indigente, desnorteada e de memória seriamente avariada.

Lembremos: os recursos que foram cortados na área de educação e cultura, perpetrados pelo governo do presidente Michel Temer, que inclusive havia extinto o ministério da Cultura, e voltado atrás, após vertiginoso clamor nacional, resvalaram drasticamente junto as instituições fomentadoras e administrativas. Entre elas a curadora do museu, a sucateada Universidade Federal do Rio de Janeiro (como aliás outras no mesmo estado se encontram, tais como a UERJ).

Milhões em investimentos nunca foram encaminhados a universidade, haja vista todos os pareceres gritantes quanto a segurança e manutenção do prédio e do acervo. Um aspeto gritante, e que choca a todos é o imenso descompromisso não só do governo perante a administração do património histórico cultural, mas quanto ao respeito que poderia ensejar a todas as comunidades de língua portuguesa representadas junto ao acervo.

Milhares de documentos coloniais, comuns a várias civilizações, alusivos tanto ao Brasil quanto a Portugal e nações africanas, simplesmente deixaram de existir.

Particularmente enquanto os bombeiros lutavam para conseguir um extintor que funcionasse junto ao prédio, em estado lastimável.

Entre as joias da cultura dos mundos lusitano e brasileiro, respetivamente, desapareceram entre os milhares de documentos vivos, uma primeira edição impressa de “Os Lusíadas”, de 1572. Nada mais sintomático: retornamos a um “momento ágrafo”, anterior à conquista portuguesa.

Num lapso cínico, não obstante, várias notas governamentais começaram a ser encaminhadas lamentando o ocorrido e declarando ajuda.

Esqueceram apenas de lembrar que um fóssil datado por Carbono 14 em 12.000 anos, como o de “Luzia”, encontrado em Minas Gerais no século XVIII, não podem ser reparados facilmente, se não existiram para o sê-lo.

As chamas destruíram muito mais do que pedra e cal. Implodiram a dignidade de termos um passado em comum. Coloquemos na conta do desastre anunciado, milhares de achados arqueológicos e décadas de pesquisa paleontológica, antropológica e biológica, que o complexo do museu abrigava.

Momento de refletirmos se esse pragmatismo tecnicista das políticas públicas atuais que impõe lucro imediato e uma profunda imagem negativa para a memória e para a histórica, não são os instrumentos de uma estratégia de pauperização da cultura.

Chave que fecha um macabro cortejo das vontades e sensibilidades, quando milhões de brasileiros simplesmente não fazem ideia do que aconteceu.

Detalhe, apenas dois dos atuais candidatos à presidência da República possuem em suas propostas planos culturais que incluam os museus (!!).

Do outro lado da moeda, as elites locais, as mesmas que fingem comoção nacional, continuarão a visitar o Louvre, enquanto seus conterrâneos entre os milhões de brasileiros -simples trabalhadores- que acessavam o Museu Nacional, amargarão juntar os cacos de uma história negada.

Triste dia para a América Latina e para os países de língua portuguesa.

*Ramsés Nunes, historiador brasileiro e ativista musical, escreve semanalmente às quartas no LUX24.