Rui Curado Silva, investigador em Física.

Escrevo de uma missão de trabalho nos EUA, numa colaboração que envolve instituições de investigação italianas, americanas, portuguesas e a NASA. Em casa deixei a esposa que tem dupla nacionalidade e o filho que tem três nacionalidades e fala quatro línguas. Por isso, quando o Paulo Dâmaso me desafiou para escrever numa publicação portuguesa no Luxemburgo, não hesitei. Tem tudo a ver, rima com a minha vida e com os tempos que correm.

Deste lado do Atlântico, o patrão da Casa Branca é o tema dominante das conversas. Os meus interlocutores são pessoas informadas, que lidam com investigadores de todo o mundo que passam pelo Centro de Lançamento de Balões da NASA do estado Novo México. Como foi possível eleger Trump? Como pode um país que produz conhecimento e tecnologia de alto nível eleger um presidente assim? São americanos que receiam a própria América.

Será que na Europa temos motivos para recear menos os próprios europeus? Será que o crescimento dos partidos nacionalistas, xenófobos e populistas em vários países da Europa (Polónia, Hungria, Alemanha, Itália, França, etc.) é menos preocupante que o fenómeno Trump? Podemos ficar indiferentes ao regresso de ideologias que destruíram a Europa e espalharam a morte no continente durante a II Guerra Mundial?

É responsabilidade de todos nós, sobretudo aqueles que deixámos do nosso pequeno retângulo para nos fazermos ao mundo, impedir que o ódio volte a dominar o continente. A tarefa não é fácil.

Bono, irlandês, vocalista dos U2 e cidadão do mundo, deu uma pista da direção a tomar para travar a onda de ódio. Num artigo publicado este fim de semana em vários jornais europeus e também no jornal Expresso, Bono anuncia que a ideia provocadora que marcará a próxima tournée da banda será o desfraldar de uma bandeira da União Europeia durante os espetáculos. Concordo. Precisamos de nos unir em torno dos avanços e de todas as políticas públicas que tornaram a Europa um local onde a saúde, a educação, o conhecimento e a qualidade de vida atingiram níveis raramente atingidos noutras latitudes.

Os europeus precisam mais do que nunca que a Europa seja reativada, que responda aos tempos que correm. Por exemplo, precisamos de uma rede pública europeia de transportes que responda à mobilidade dos cidadãos, de uma rede europeia de distribuição de energia limpa e eficaz, de um verdadeiro estatuto de trabalhador europeu que garanta uma proteção social de qualidade independentemente do país onde nos encontramos ou, porque não, de um espaço mediático comum, com plataformas televisivas e virtuais onde todos nos possamos encontrar e debatermos as nossas diferenças, o que nos une e o caminho que poderemos trilhar em conjunto.

*Rui Curado Silva, investigador em Física, escreve semanalmente às segundas no LUX24.

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